14 de Nov. de 2017 às 10:11

Em relato, médica lembra lutas enfrentadas na UTI pediátrica de Rondonópolis

“A nós médicos não restou soluções”, diz o texto da profissional. Ala foi fechada por falta de repasse do Estado

Robson Morais

UTI pediátrica com leitos vazios após fechamento. Foto: Assessoria

Ana Paula Bellinat é médica. Atua, ou melhor, atuava, na Unidade de Terapia Intensiva -UTI pediátrica da Santa Casa de Rondonópolis. A ala fechou definitivamente as portas, após meses de sufoco e luta para se manter sem os repasses de responsabilidade do Governo do Estado. A dívida total ultrapassa a casa dos R$ 5,3 milhões.

O recurso bancava tanto a folha de pagamento quanto o custeio estrutural da UTI. Há uma semana, em caráter emergencial, o então governador em exercício Carlos Fávaro destinou R$ 860 mil ao hospital. Foi pouco.

Após a transferência dos últimos dois pacientes da UTI pediátrica, a ala encerrou suas atividades. Em um relato tocante e emocionado, a médica Ana Paula Bellinat lembrou dos momentos que ela e a equipe viveram no hospital. A luta que salvou vidas, precocemente encerrada pela falta de dinheiro e providência política.

Leia abaixo:

"Eu poderia escolher uma foto bonita da UTI pediátrica ou da minha equipe, mas prefiro mostrar que não me importa holofotes ou midia...

Há cerca de 14 anos sai de Rondonópolis para me tornar médica. Como a maioria dos médicos tive dificuldade para entrar na curso de medicina, depois enfrentei 6 anos de muita dedicação e aprendizado. Formei. Novamente mais provas e desta vez para residência médica em pediatria. E quando já achavam que estava satisfeita, descobri minha maior paixão profissional: unidade de terapia intensiva pediátrica.

Há cerca de 4 meses retornei a minha casa e desde então tenho me dedicado exclusivamente a nossa "UTI ped" na Santa Casa. Foram diversas alegrias e algumas tristezas. Cada criança que salvamos foi uma vitória minha e da minha equipe!!

Infelizmente o sonho durou muito pouco. A escala de plantonistas foi se minguando e as portas da unidade se fechando. Sim, a diretoria sabia da evolução catastrófica e os políticos também.

A nós médicos não restou soluções. Estávamos sem receber e, independente disso, ainda assim permanecemos prestando nosso melhor serviço aos que precisavam. As nossas contas continuaram vencendo como de toda população, não importando aos fornecedores o nosso juramento como médicos.

ANA PAULA BELLINAT- MÉDICA PEDIATRA INTENSIVISTA".