10 de Set. de 2019 às 10:31

Professor de Psicologia explica o que leva ao suicídio

O suicídio como uma espécie de ponto final, como uma solução que a pessoa adota para enfrentar a dor

DENILSON PAREDES

O mês de Setembro foi escolhido para ser dedicado à prevenção do suicídio, que tem tirado muitas vidas preciosas para a sociedade, principalmente entre jovens. A campanha teve início em 2015, por iniciativa do Centro de Valorização da Vida (CVV), do Conselho Federal de Medicina (CFM) e da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e tem o objetivo de discutir o tema e levar esclarecimentos para as pessoas que convivem com alguém potencialmente suicida e para a sociedade em geral, carente de saber mais sobre o tema.

Com intuito de contribuir para uma melhor compreensão sobre o tema, o GazetaMT irá publicar algumas matérias abordando o tema, como forma de contribuir com a compreensão do assunto e também ajudar a evitar que pessoas venham a atentar contra a própria vida.

Na nossa primeira entrevista, vamos falar com o professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR), Alcindo José Rosa, que fala um pouco sobre o que leva as pessoas a cometerem esse ato extremo, que leva pessoas, na grande maioria jovens, a tirarem a própria vida.

Professor universitário com Doutorado em Saúde Público, o psicólogo Alcindo José Rosa descreve o suicídio como uma espécie de ponto final, como uma solução que a pessoa adota para enfrentar a dor. "Nós costumamos diferenciar a dor do sofrimento, pois a dor é uma coisa que repercute no corpo, apesar de ser psíquica. E quando isso é transformado em sofrimento, já pode ser verbalizado, falado. É uma dor que sai do corpo, sem nome, para a qual a gente quer dar um fim. E aí o suicídio seria essa resposta. O tratamento consiste em transformar essa dor em sofrimento, que pode ser falado. Eu estou triste com a situação do país, estou passando por uma dificuldade financeira, houve uma desavença conjugal, um insucesso na vida, algo assim", explicou.

"É uma dor que sai do corpo, sem nome, para a qual a gente quer dar um fim. E aí o suicídio seria essa resposta", define o professor Alcindo José Rosa, da UFRSegundo ele, isso leva a pessoa a algo semelhante ao luto, que é algo normal, já que todos nós ficamos tristes por algum tempo quando experimentamos alguma frustração ou fracasso, mas algumas pessoas não conseguem superar e sair dessa situação. "Aí acontece e adoecimento do luto. Ele é causado pela morte de alguma pessoa, mas diversas outras situações também causam o luto, como situações que idealizamos e elas não acontecem da forma como foi idealizada. Acontece que esse luto às vezes se torna patológico, se estende muito mais do que necessário. E aí tem um agravante na sociedade contemporânea, porque observamos que certas pessoas nem saram de um luto e já entram noutro. Então, são muitas tragédias que acontecem com essas pessoas, uma desilusão amorosa, um acidente onde perde alguém, são diversas coisas que levam a pessoa a nem sair de um buraco e já cair noutro. É como se a pessoa vivesse num luto o tempo todo", continuou.

Como resultado desse estado de luto quase que permanente, a pessoa vai acumulando dores e, ao não conseguir superar isso e não ver nenhuma forma de gratificação na vida, algo que todos os seres humanos buscam, ela muitas das vezes opta por tirar a própria vida. "Todos nós queremos ser reconhecidos, valorizados. Mas imagina a situação em que o menino o tempo todo na escola é ridicularizado, repudiado, chamado de feio, sofre bullying e quando chega em casa também não encontra afeto. Onde ele tenta achar afeto, ele não acha. Ele começa então a achar que a vida não vale a pena. Porque nós precisamos o tempo todo ser recompensados, ser gratificados, compreendidos. Isso está muito difícil no mundo contemporâneo e isso tudo é registrado como uma dor", afirmou o professor.

Ele continua afirmando que ouve relatos claros de pessoas com tendência suicida de que elas querem se livrar disso, tirar essa dor de dentro delas. "Só que aí há como que um equívoco, pois ao querer matar essa dor, se mata a própria existência, ela própria. Essa seria uma explicação psicológica para esse fenômeno do suicídio. É esse fato de a pessoa querer se livrar dessa dor, mas ao fazer isso, morre-se", definiu Alcindo Rosa.

"Essa seria uma explicação psicológica para esse fenômeno do suicídio. É esse fato de a pessoa querer se livrar dessa dor, mas ao fazer isso, morre-se”, definiu Alcindo RosaO suicídio existe desde tempos imemoráveis e há registros de suicídios desde a Antiguidade, principalmente associado à melancolia, que se achava ser por conta do excesso de bílis, ou fel, que é um fluído produzido pelo fígado para ajudar no processo digestivo. "É por isso que até hoje as pessoas dizem "estava amargurado", porque é o excesso de bílis que dá aquele amargor na boca. Mas o suicídio também era muito associado à genialidade, pois muitos filósofos se mataram. Mas também há relação com a cultura, com o momento político, socioeconômico. Atualmente estamos vendo, principalmente entre adolescentes e jovens, o cutting, que é a automutilação, que é de certa forma uma tentativa de suicídio, no sentido que é uma tentativa de mostrar essa dor", contou.

Ele comenta que por muitos anos a imprensa, sociedade e a própria academia não gostava de falar a respeito do suicídio, por conta do fenômeno do contágio, que faz que uma pessoa que cometa suicídio acabe por estimular outras a fazerem o mesmo, provocando um evento em cadeia, que pode vitimar várias pessoas. "Eu, pessoalmente, acho que tem que se falar sim, com certa cautela, mas tem que se falar sim. Por muito tempo não se quis falar de questões como a sexualidade, que era um tema tabu. Por muito tempo não se falou de violência doméstica, porque esse era um assunto de dentro de casa. Por muito tempo, usando do mesmo raciocínio, não se quis falar do suicídio por medo disso contagiar as pessoas. Mas eu não acho que é isso que leva ao contágio, o que faz isso é que muitas vezes o suicídio se torna um fenômeno de massas. Então, é muito comum que quando aconteça um suicídio, logo em seguida acontecem mais dois ou três. É como se houvessem duas ou três pessoas na espera, só esperando alguém se matar para fazer o mesmo. É o mesmo que ocorre com o cutting".

"Há uma coisa aí ligada à impulsividade. Há os casos de suicídio associados à melancolia, que você encontra o cara agora vivo e daqui a pouco está morto. Esse é caso do cara que vai tentar e vai ser bem sucedido. E essa pessoa às vezes está bem, entre aspas, mas logo ele se suicida. Mas há os casos em que a impulsividade está junto, que são as tentativas. Ninguém imagina que vai morrer por conta de pequenos cortes na pele, mas é um pedido de ajuda, sinal de que ali há uma dor", completou.

Para contribuir com a prevenção contra o suicídio, a UFR e a prefeitura montaram uma parceria que permite o atendimento psicológico para potenciais suicidas - Fotos Denilson Paredes O professor ainda explica que apesar da dor estar na pessoa, as causas dessa dor estão na sociedade, mas há uma dificuldade para analisar se há o aumento ou diminuição de casos de suicídio na atualidade, pois até bem pouco tempo atrás não se divulgava os casos, mas com base nos registros atuais, se percebe que há uma certa média, que tem se mantido ao longo dos tempos, mas a melhora nos sistemas de informação dá uma impressão de que os casos tenham aumentado, mas não há dados para se afirmar que acontecem mais suicídios na nossa época em relação a outras.

Políticas públicas de prevenção

O que há de novo em relação ao assunto são as políticas públicas de prevenção ao suicídio, que de acordo com o professor Alcindo Rosa começaram a ser executadas por volta do ano de 2005, quando o problema começou também a ser tratado como problema de saúde pública. Em Rondonópolis, uma parceria firmada entre a prefeitura de Rondonópolis e o Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR) possibilitou o atendimento psicológico para pessoas em situação de risco de suicídio.

Chamado "Escolha Viva: Atendimento Psicológico para Pessoas em Risco de Suicídio. Há Outras Escolhas!", o projeto de Extensão Universitária leva formandos na área da psicologia e professores para prestarem atendimentos para pessoas com a chamada ideação suicida e também para pessoas que convivem ou conviveram com essas pessoas. Os atendimentos são gratuitos e acontecem na Policlínica Central todas as quartas-feiras, sempre das 17h às 19h.