EM FAMÍLIA

De forma direta ou via “bastidores”, Nininho engendra parentes na política de Mato Grosso

Da prefeitura de Itiquira à ALMT, deputado estadual segue carreira lançando estrategicamente apadrinhados em posição de destaque

por Estevan de Melo - De Cuiabá

01 de Junho de 2020, 07h00

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Divulgação

Muito além da atuação parlamentar estão as relações do deputado estadual Ondanir Bortolini, o Nininho (PSD), com os Poderes constituídos em Mato Grosso. Já cacique de Assembleia Legislativa em oito anos de mandato, também nome forte dentro do Partido Social Democrático (PSD), conta com pares em cargos públicos e posição de destaque Estado afora, entre prefeitura no interior, suplência em chapa ao Senado e assessoria parlamentar. Estes de forma direta. Outros, ainda, são engendrados nos Governos via contratos públicos.

Em Itiquira, Nininho conta com o irmão reeleito em 2016 Humberto Bortolini, o Betão (PSD), prefeito do município de Itiquira. Em 2019, ele e o vice, Antônio Joaquim, foram alvos de processo no Tribunal Regional Eleitoral (TRE), em ação movida pelo Ministério Público Eleitoral (MPE), acusados de práticas vedadas ao processo eleitoral, como propagandas e contratação de servidores comissionados fora do prazo permitido por Lei. Betão acabou reeleito com mais de 70% dos votos válidos na última eleição municipal.

É com Betão que se inicia o apadrinhamento político-empregatício do atual deputado estadual. O irmão assumiu o posto de prefeito após três passagens de Nininho pela Prefeitura de Itiquira, de 1993 a 1996 e depois outros dois mandatos seguidos (2001-2004 e 2005-2008). Nininho foi à ALMT mantendo laço estratégico.

Betão e Carlos Fávaro

Os filhos

Mais recentemente, foi a vez dos filhos de Nininho figurarem de forma mais pública em reuniões e encontros de cunho eleitoreiro. Dos três, Fernando e Fausto Bortolini são de mais destaque no cenário. Na eleição ao Senado Federal em 2018, por articulação do pai, Fernando foi lançado como candidato a segundo suplente na chapa encabeçada pelo ex-vice governador Carlos Fávaro.

Na ocasião, Fávaro e, consequentemente Fernando, acabaram derrotados pela senadora eleita Selma Arruda (Podemos). Ocorre que dois anos mais tarde à posse, a “Moro de saias” acabou cassada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por abuso de poder econômico e caixa 2. Após muita discussão e possibilidade de eleição suplementar, o cargo passou para Fávaro, terceiro colocado na eleição.

Fernando Bortolini e Carlos F´ávaro

Acompanhado do pai, Fausto participou de encontro recente em Rondonópolis. Em pauta a sucessão municipal nas eleições 2020. Naquela ocasião, o filho mais novo posou em foto junto ao grupo articulado por possíveis candidatos em oposição à reeleição do atual prefeito José Carlos do Pátio (SD). Tempos depois, a coisa mudou.

Fausto passou a ser apontado como possível candidato a vice-prefeito na chapa encabeçada justamente por Pátio. Sem vice desde o racha público Ubaldo Barros, o projeto de reeleição carece de nome bem avalizado no meio específico. Não faz muito tempo, as “negociações” para a confirmações se encontravam em estado avançado, com apoio de um grupo forte, que conta, obviamente, com o “oráculo” deputado estadual.

Fora os filhos, vez e outra, demais rostos conhecidos e de grau relevante de parentesco aparecem em registros de encontros e reuniões políticas, caso da nora. E assim conduz Nininho sua estratégia política, garantindo desde assessores indicados até a alocação de demais apadrinhados.

Nininho, Fausto Bortolini e o atual governador Mauro Mendes em foto recente

As vias indiretas

Ainda sobre Fernando e Fausto, ambos tocam o comando da Construtora Tripolo, empresa com sede em Rondonópolis e tradicionalmente participante de editais e licitações em Mato Grosso, tanto do Governo do Estado quanto dos municípios. No histórico, entre projetos grandiosos e lucrativos, acúmulo de denúncias.

Raro uma grande licitação no Estado não contar com a concorrência da Tripolo, o que é absolutamente natural. Vencer os editais, diga-se, também. As obras de recapeamento do pavimento da rodovia estadual MT-270, no trecho entre Rondonópolis e Guiratinga, a pavimentação dos 22,14 quilômetros da rodovia MT-010, do trecho do entroncamento da MT-484 até o entroncamento da MT-242, em Ipiranga do Norte (distante a 439 km de Cuiabá) são só dois exemplos recentes.

Em Rondonópolis, também recente, a Tripolo se saiu vencedora do certame que definiu a empresa responsável pelas obras da Avenida dos Estudantes, paga com recursos próprios e com recurso de uma emenda parlamentar de mais de R$ 4 milhões articulada pelo deputado federal José Medeiros (Podemos). Sobre esta, a Tripolo segue executando a obra mesmo com os pagamentos atrasados por parte da Prefeitura de Rondonópolis.

Outro projeto importante disputado pela Tripolo em Rondonópolis foi a recuperação do Anel Viário Conrado Salles Brito, entregue pelo Governo do Estado em 2020. A concorrência, entretanto, foi vencida pela empresa Enpa Engenharia e Parceria Eirelli.

O Governador de MT Mauro Mendes em um dos tratores da Tripolo, em obra pública vencida pela construtora

As denúncias

O que chama a atenção é que a Tripolo continua disputando certames e, por vezes, vencendo, mesmo acumulando denúncias graves junto ao Ministério Público Federal (MPF) e demais órgãos de justiça nas esferas estadual e municipal. Fato que o nome dos personagens aqui citados pesa, o que pode elucidar o mistério. A exemplo, o MPF abriu uma investigação contra a construtora com base na acusação de participação em desvios durante a gestão do ex-governador Silval Barbosa. Em delação premiada-classificada como “monstruosa” pelo ministro do STF Luiz Fux-, o ex-governador relatou diversos casos de corrupção envolvendo a empresa.

MT-130

Em 2019, o Ministério Público Estadual (MPE) ingressou com uma ação civil pública contra Nininho e Silva para bloquear R$ 77 milhões em bens por atos de improbidade administrativa envolvendo a fraude na licitação que envolveu a concessão da rodovia MT 130, no trecho de 122 quilômetros entre Rondonópolis e Primavera do Leste, região Sul do Estado. O pedido, neste caso, atinge a duas empresas ligadas ao deputado e sua família: a Tripolo e a Concessionária Morro da Mesa, detentora do pedágio.

De acordo com as investigações, em 2011, o deputado estadual Nininho, teria procurado o ex-governador Silval Barbosa para que o governo assinasse a concessão da rodovia e a autorização de cobrança de pedágio. Em contrapartida, o parlamentar teria pago R$ 7 milhões de propina ao ex-governador. O caso também chegou a ser investigado pela Polícia Federal, porém, por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) foi remetido para o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1ª).

Na época, Nininho negou ser dono das empresas e todas as acusações feitas pelo ex-governador Silval Barbosa.

Nininho e Silval Barbosa