OPINIÃO

Como produção, infraestrutura e agroindustrialização estão transformando Mato Grosso e o Vale do Araguaia em um dos principais polos

por Stéphano Benevides do Carmo

01 de Julho de 2026, 06h10

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Divulgação

No artigo anterior, defendi que Mato Grosso continuará sendo um dos principais

destinos de investimentos do agronegócio brasileiro na próxima década. Essa conclusão

não decorre apenas da liderança do Estado na produção de alimentos, mas da

combinação entre produtividade, segurança jurídica, infraestrutura em expansão e

crescente capacidade de agregar valor à produção.

Ao aprofundarmos essa análise, percebemos que algumas regiões concentram um

conjunto de fatores capazes de impulsionar um novo ciclo de desenvolvimento

econômico. Entre elas, o Vale do Araguaia desponta como uma das áreas mais

promissoras do país.

Durante muitos anos, o valor de uma propriedade rural era determinado principalmente

pela fertilidade do solo, pela disponibilidade de água, pela localização e pela capacidade

produtiva da terra.

Essa lógica continua importante, mas já não explica sozinha a valorização patrimonial

observada nas regiões mais dinâmicas do agronegócio brasileiro.

A valorização das terras rurais deixou de ser explicada apenas pela expansão da

produção agrícola. Hoje, ela é impulsionada pela formação de um ecossistema

econômico integrado, no qual produção, pecuária, infraestrutura, agroindustrialização,

logística e agregação de valor atuam de forma complementar, transformando a terra em

um ativo estratégico de longo prazo.

Essa é, na minha avaliação, a principal transformação econômica em curso no

agronegócio mato-grossense.

Quando falo em “ecossistema integrado”, não me refiro a um conceito teórico, mas a

uma realidade observada na prática, junto a produtores, investidores e gestores públicos.

A terra que ontem era avaliada apenas pelo que produzia hoje passa a ser avaliada pelo

que pode se tornar. Essa mudança de perspectiva separa investidores que enxergam o

futuro daqueles que ainda olham para o passado.

O agronegócio representa aproximadamente um quarto do Produto Interno Bruto

brasileiro e segue como um dos principais motores da economia nacional.

Nesse cenário, Mato Grosso ocupa posição de liderança.

O Estado responde por cerca de 15% do Valor Bruto da Produção Agropecuária do

Brasil, com aproximadamente R$ 206 bilhões, lidera a produção nacional de soja e

milho e possui o maior rebanho bovino do país, com mais de 31 milhões de cabeças.

Esses números demonstram a força da produção.

Contudo, a transformação mais relevante está no modelo econômico.

Durante décadas, Mato Grosso exportou predominantemente commodities. Hoje, vive

uma nova fase baseada na agroindustrialização.

O Estado concentra cerca de 70% da produção brasileira de etanol de milho, com

processamento de aproximadamente 13,9 milhões de toneladas de milho, produção

superior a 5,6 bilhões de litros de etanol e geração de cerca de 2,7 milhões de

toneladas de DDGS.

Essa cadeia movimenta mais de 147 mil empregos diretos, indiretos e induzidos,

além de atrair investimentos bilionários e ampliar a arrecadação estadual.

O impacto estrutural é ainda mais relevante: o milho deixa de ser exportado como

commodity bruta e passa a ser industrializado dentro do próprio Estado.

Uma tonelada de milho processada para produção de etanol gera, em média, 450 litros

de etanol, 212 kg de DDGS (coproduto utilizado na alimentação animal) e 19 kg de

óleo de milho.

Esse “triple effect” — combustível, ração e óleo — transforma a cadeia do milho em

um dos vetores mais completos de agregação de valor do agronegócio brasileiro.

Esse movimento já alcança o Vale do Araguaia.

A expansão agrícola, o fortalecimento da pecuária, a instalação de agroindústrias em

municípios como Canarana e Porto Alegre do Norte, os investimentos previstos para

Querência e a evolução da infraestrutura regional demonstram que a região passa a

integrar a nova geografia econômica do agronegócio brasileiro.

Projetos estruturantes como a Ferrovia de Integração Centro-Oeste (FICO), a

pavimentação da BR-158 — incluindo o Contorno Leste licenciado pelo Ibama e

executado pelo DNIT — e os investimentos em armazenagem e energia ampliam a

competitividade regional.

A produção agropecuária brasileira deve superar 353 milhões de toneladas de grãos na

safra 2025/2026.

No entanto, a capacidade de armazenagem atende apenas cerca de 61,7% da produção,

gerando um déficit superior a 134 milhões de toneladas.

Em Mato Grosso, a capacidade de armazenagem cobre pouco mais de 50% da

produção estadual.

Esse desequilíbrio pressiona a logística, aumenta custos e reduz eficiência.

Por isso, infraestrutura deixou de ser suporte e passou a ser fator central de

competitividade.

A Ferrovia de Integração Centro-Oeste (FICO) já apresenta 55,38% de avanço físico,

com investimentos estimados em R$ 10,7 bilhões.

Ao conectar o Centro-Oeste ao Porto Sul, em Ilhéus (BA), a ferrovia reduzirá custos

logísticos e criará uma nova rota de escoamento para a produção do Vale do Araguaia.

O impacto será estrutural, comparável ao da BR-163 em seu ciclo de transformação.

O trecho entre Água Boa (MT) e Cocalinho (MT) ainda enfrenta desafios de

licenciamento ambiental e diálogo com comunidades indígenas. São gargalos reais, mas

que não inviabilizam o projeto — apenas exigem gestão, diálogo e visão de longo

prazo.

As grandes oportunidades surgem quando as transformações econômicas ainda estão em

curso.

Na avaliação deste artigo, o Vale do Araguaia vive exatamente esse momento.

Mais do que uma região produtora de grãos e carne, consolida-se como um polo de

desenvolvimento baseado na integração entre produção, agroindustrialização,

infraestrutura, logística e inovação.

A história econômica demonstra que as regiões que mais se valorizam não são

necessariamente as que produzem mais, mas aquelas que conseguem transformar

produção em desenvolvimento, infraestrutura em competitividade e investimentos em

prosperidade de longo prazo.

Compreender essa dinâmica é compreender o futuro do agronegócio brasileiro.

Mato Grosso e o Vale do Araguaia reúnem, hoje, os fundamentos para serem

protagonistas desse futuro.

Fontes e Referências

Conab – Companhia Nacional de Abastecimento

IMEA – Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

MAPA – Ministério da Agricultura e Pecuária

CNA – Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil

ESALQ/USP – ESALQ-LOG

SEFAZ-MT – Secretaria de Fazenda de Mato Grosso

SEDEC-MT – Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Mato Grosso

Governo do Estado de Mato Grosso

Stéphano Benevides do Carmo

Empresário • Ex-Secretário Adjunto de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de

Mato Grosso