Cinco mil vidas em eco

por * Por Marcelo Brito da Silva

10 de Março de 2016, 07h15

Cinco mil vidas em eco
Cinco mil vidas em eco

“Quem não lê, aos 70 anos terá vivido só uma vida. Quem lê, terá vivido 5 mil anos”. A frase é de Umberto Eco, o famoso escritor de O Nome da Rosa, falecido mês passado em Milão, aos 84 anos. Tal frase me fez pensar no poder multiplicador da leitura: multiplica nossas experiências, nossa sensibilidade, nossa capacidade de pensar e, por tabela, nossa consciência crítica. Mário Vargas Llosa, ao receber o prêmio Nobel de Literatura disse que não há nada melhor para fomentar a criticidade do que a leitura literária.

Penso que Eco fazia referência a algo muito singular na literatura a que podemos chamar de experiência vicária. É o poder que tem a literatura de nos transportar para outro tempo e lugar para “vivermos” os dramas de outras pessoas, as personagens da ficção. No mergulho da leitura o leitor experimenta a suspensão da incredulidade, ou seja, envolve-se a tal ponto de tomar a história como verdadeira, ainda que seja invenção, imaginação do autor. Daí chega a torcer, sorrir ou chorar com os sucessos das personagens pelo processo vicário (substitutivo) a que me referi acima.

Mesmo não perdendo um filho, eu posso me aproximar da dor que tal experiência produz ao ler, por exemplo, O Quinze, de Raquel de Queiroz, romance em que a retirante assiste a seu filho agonizando até morrer após ter comido mandioca brava, sem nada poder fazer. Ou compartilhar a angústia de Luisinha, de O primo Basílio, com a chantagem que Juliana lhe fazia diariamente, a empregada doméstica que havia guardado as provas de sua traição. Ou o desespero que Bertoleza sentiu ao ser descartada, abandonada como lixo por João Romão, no romance O Cortiço. Ou a satisfação do amor correspondido dos protagonistas de A Moreninha. Ou ainda a extrema alegria de se receber uma herança inesperada e se tornar um homem rico da noite para o dia, como aconteceu com o afortunado enfermeiro de Quincas Borba no romance machadiano.

Esses são apenas alguns exemplos que apontam sentimentos despertados pela leitura de um bom livro. É esse contato com as virtudes e vícios das personagens da ficção, com sua luta cotidiana tão igual a nossa, com a análise psicológica e as descrições que os grandes escritores são capazes de nos proporcionar que pode multiplicar os limites da nossa vida. Não mais uma vida, mas muitas vidas em eco, como disse o célebre escritor italiano, cujo nome nos fornece aqui o trocadilho mais que pertinente. Quem lê vive mais, literalmente!