2018

Um PT perdido em estratégias após depoimento de Antonio Palocci

Diante da possibilidade de o ex-presidente Lula, ser preso, partido estuda alternativas para eleições

por GazetaMT

11 de Setembro de 2017, 06h52

Um PT perdido em estratégias após depoimento de Antonio Palocci
Um PT perdido em estratégias após depoimento de Antonio Palocci

O depoimento do ex-ministro Antonio Palocci ao juiz Sérgio Moro, na última semana, apunhalou os companheiros de partido e pode resultar na prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para o PT, a inviabilidade eleitoral do principal líder para a cadeia frustra os planos de retornar à Presidência da República em 2018, já que, à exceção da estrela petista, não há outro nome com capital político para vencer a disputa.

  Diante do tombo, a legenda busca fortalecer o nome do ex-ministro da Educação e ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, justamente levantando a bandeira da educação para tentar chegar à corrida presidencial, ao menos, como coadjuvante.

Apesar das negativas públicas da cúpula do partido sobre a existência de um plano B, integrantes confirmam que Haddad é uma das possibilidades para fazer com que a sigla se aproxime novamente do Palácio do Planalto.

 "A ideia era colocar o Lula como presidente, mas, quando o cerco começou a se fechar, passamos a trabalhar um substituto de maneira mais contundente. As opções eram (Jaques) Wagner e Haddad, que ficou para trás, porque o Wagner está com medo das delações da OAS na Lava-Jato e não demonstrou interesse em virar vitrine neste momento", comenta um petista, que prefere não se identificar.

Sob a proteção do ex-presidente, Fernando Haddad tem viajado o país participando de palestras e seminários em universidades. O tema da educação tem sido prioritário e ele passa a se articular de maneira mais viva.

Além disso, Haddad tem atuado como um embaixador petista no PSB - partido historicamente aliado do PT, mas que rompeu o relacionamento após a morte em um acidente aéreo de seu principal líder, Eduardo Campos.

 A tentativa é ampliar o apoio da militância fora do Nordeste. "O Haddad é mais novo, mais leve, tem acesso ao Márcio França (vice-governador de São Paulo), que, hoje, é quem manda no PSB. Se isso for para a frente, é possível que o PT saia nas eleições como vice de alguém", conta o petista.

"Não sabemos por que o Palocci resolveu falar tudo isso, ainda mais sem provas... Mas o problema maior vai ser quando ele precisar desmentir, né?"

Benedita da Silva,deputada federal (PT-RJ)

Comenta-se que o elo entre o PT e o Planalto poderia ser Ciro Gomes, que já chegou a dizer que uma aliança com o ex-prefeito seria um "time dos sonhos". Mas Fernando Haddad nega. Ele declarou, inclusive, em entrevista ao Correio, no último mês, que, diante da situação em que o PT se encontra, "ameaçado de extinção", faz-se necessário que a sigla seja cabeça de chapa em 2018. "A pretensão era que o candidato fosse de outro partido com apoio do PT, em outras condições, mas não nas condições em que o partido está, ameaçado de extinção pelas forças de oposição", comentou.

Esbarrando na possibilidade de Lula ficar inelegível - por sentença judicial que o mande à cadeia ou o enquadre como ficha suja -, e de uma rejeição de Haddad nas pesquisas, o PT traçou como alternativa o fortalecimento do partido na Câmara dos Deputados, uma tentativa de "ganhar" o Executivo por meio do Legislativo.

 Nas últimas eleições, 58 deputados e nove senadores petistas foram eleitos. Baseado na perda eleitoral da sigla nas eleições municipais de 2016, nas quais o número de prefeituras caiu de 630 para 256, o saldo não deve se repetir.

 Então, a prioridade é a Câmara. Os senadores foram instruídos a abandonar projetos de reeleição para investirem em uma cadeira de deputado federal. Nomes como o da senadora Gleisi Hoffmann (PR) e o do ex-senador Eduardo Suplicy (SP) estariam nessa lista. E, diante da grande chance de o sistema eleitoral permanecer o mesmo na reforma política que tramita no Congresso, os medalhões devem servir para a conquista de novas vagas.

Incerteza

As ponderações citadas, somadas ao estrago já provocado pelo depoimento de Palocci - que acusou Lula e Dilma Rousseff de terem beneficiado a Odebrecht em troca de propina, sendo a parte de Lula R$ 300 milhões - já seriam suficientes para preocupar os dirigentes do PT. Mas, o que realmente incomoda é a incerteza do que ainda está por vir.

 Se Palocci conseguir fechar o acordo de delação premiada que está negociando com o Ministério Público Federal, ele deve entregar todos os detalhes das operações ilícitas envolvendo o governo nos últimos 14 anos.

 "O clima é de terror, porque Palocci é o primeiro 'grão petista' a delatar. O cara que foi o homem de confiança dos dois presidentes do PT, ministro da Fazenda e da Casa Civil. Não será desacreditado. É impensável dizer que um ministro negociava coisas à revelia dos presidentes. Lula não pode nem dizer que não sabia, porque ele já usou essa ficha. O que falta é só a apresentação de provas que incrimine todo mundo", avaliou um funcionário do alto-escalão do partido.

Enquanto se discute o futuro do PT nos bastidores, o front tenta acalmar os ânimos da militância. A deputada Benedita da Silva (PT-RJ), por exemplo, está entre os que defendem "a tranquilidade tanto do presidente, quanto do partido". "Estamos muito seguros, muito tranquilos com tudo o que está acontecendo. Não sabemos por que o Palocci resolveu falar tudo isso, ainda mais sem apresentar provas... Mas o problema maior vai ser quando ele precisar desmentir, né?", afirmou.