OPINIÃO
A invasão silenciosa que ameaça o futuro da indústria brasileira
12 de Outubro de 2026, 06h01
Enquanto o debate público e a imprensa, corretamente, concentraram atenções no erro que foi cometido com o fim da taxação do comércio eletrônico de pequeno valor — o episódio das “blusinhas” —, uma transformação de proporções maiores ocorre nos bastidores da economia real sem encontrar o devido eco na opinião pública. Trata-se da massiva pressão exercida pela supercapacidade produtiva chinesa sobre a indústria de transformação brasileira. Tratar a relação comercial entre Brasil e China sob a régua estreita do consumo individual não é apenas uma simplificação grosseira, mas um desvio de foco que oculta o maior dilema estrutural do desenvolvimento econômico nacional na atualidade.
O país vive uma autêntica contradição existencial em sua política externa e econômica. De um lado, setores vitais como o agronegócio, a mineração e o petróleo enxergam em Pequim o principal motor de suas exportações e a garantia de seus sucessivos superávits comerciais. Para a pauta de bens primários e de semimanufaturados, a China representa o parceiro comercial dos sonhos, com uma boa e contínua demanda por commodities agrícolas e minerais. Por outro lado, para o nosso parque fabril, a mesma China é vista como o maior desafio estrutural da atualidade: uma força cuja presença crescente nos mercados internos assume contornos de uma corrosão progressiva dos elos produtivos locais, incapacitados de concorrer com subsídios estatais massivos, câmbio controlado e custos de produção incomparáveis.