OPINIÃO

Mulheres brasileiras ainda ficam atrás no inglês fluente

por Marcelo Soares

12 de Março de 2026, 06h10

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Divulgação

Apesar de as mulheres brasileiras apresentarem níveis mais altos de escolaridade em comparação aos homens, um dado chama atenção quando o assunto é domínio do inglês. Segundo o EF English Proficiency Index, um dos principais indicadores globais de proficiência no idioma, os homens registram pontuação média de 473 pontos, enquanto as mulheres aparecem atrás, com 459 pontos.

A diferença é pequena, mas revela um comportamento interessante no cenário da qualificação profissional no país. O levantamento também aponta que a faixa etária entre 18 e 24 anos apresenta os melhores níveis de proficiência, indicando que as novas gerações chegam ao mercado de trabalho com maior familiaridade com o idioma.

O contraste chama atenção porque, no campo educacional, as mulheres já são maioria. Dados do Censo da Educação Superior, divulgado pelo INEP, mostram que elas representam cerca de 59% dos estudantes nas universidades brasileiras e também predominam entre os concluintes de cursos de graduação.

Mesmo assim, quando o tema é domínio de idiomas, os números revelam uma pequena diferença. Em um país onde o inglês ainda é pouco disseminado — estimativas indicam que menos de 5% da população brasileira possui fluência no idioma — qualquer variação estatística se torna relevante. Isso porque o inglês deixou de ser apenas uma habilidade complementar e passou a funcionar como porta de entrada para oportunidades profissionais.

Empresas multinacionais, projetos internacionais, o setor de tecnologia e o crescimento do trabalho remoto ampliaram a demanda por profissionais capazes de se comunicar globalmente. Em muitas áreas, o inglês já não aparece apenas como diferencial, mas como requisito básico.

O que explica, então, essa diferença?

Parte da resposta pode estar na forma como homens e mulheres se relacionam com o próprio processo de aprendizagem do idioma. De modo geral, muitas mulheres tendem a buscar um domínio mais preciso da língua, com atenção à pronúncia correta, à construção das frases e aos detalhes gramaticais. Já os homens costumam adotar uma abordagem mais pragmática, priorizando a comunicação mesmo que o idioma ainda não esteja perfeito.

Essa diferença de comportamento pode influenciar o ritmo do aprendizado. Enquanto alguns estudantes avançam priorizando a comunicação prática, outros acabam se prendendo mais a detalhes da estrutura da língua, o que pode tornar o processo mais longo ou intermitente.

Outro fator relevante é o momento em que o inglês passa a ser tratado como prioridade profissional. Muitos profissionais só percebem a importância do idioma quando surgem oportunidades de promoção, vagas em empresas internacionais ou projetos que exigem comunicação global. Quando isso acontece, quem já domina o idioma naturalmente larga na frente.

Falar inglês também significa ter acesso direto a conteúdos, pesquisas, cursos e redes profissionais espalhadas pelo mundo, além de participar de reuniões internacionais, negociar com parceiros estrangeiros e acompanhar tendências globais sem depender de traduções.

Ao mesmo tempo, o cenário tende a mudar nos próximos anos. O número de mulheres que buscam qualificação em inglês vem crescendo em ritmo acelerado, especialmente impulsionado pela presença cada vez maior em cargos de liderança e posições estratégicas dentro das empresas.

À medida que mais mulheres avançam profissionalmente, cresce também a percepção de que o domínio do inglês é uma ferramenta essencial para ampliar oportunidades, participar de decisões globais e ocupar espaços de influência.

Por isso, apesar de ainda aparecerem em menor número entre os profissionais com fluência no idioma, os indicadores mostram uma tendência de aproximação — e possivelmente de superação — nos próximos anos. Isso porque, mesmo com menor presença proporcional, muitas mulheres apresentam níveis de proficiência elevados e forte dedicação ao aprendizado.

Mais do que uma habilidade técnica, portanto, o inglês tornou-se uma ferramenta estratégica de carreira. Em um mercado cada vez mais globalizado, dominar o idioma deixou de ser apenas uma vantagem competitiva: tornou-se uma condição para acessar oportunidades, conectar-se a mercados internacionais e ampliar o alcance da própria trajetória profissional.

*Marcelo Soares é professor de inglês e CEO da Becourse escola de idiomas.