Manhas e artimanhas da língua portuguesa
12 de Maio de 2016, 16h07
"Estamos vivendo uma conjuntura de manhas e artimanhas." Quem vem acompanhando as notícias recentes reconhece nessa frase a voz da presidenta Dilma Rousseff. Sem entrar no mérito da análise política da tal "conjuntura", proponho algumas considerações de natureza linguística sobre essa e outras "ricas" expressões que o momento político tem sobejamente proporcionado.
Na esteira de Almir Sater, que escreveu "conhecer as manhas e as manhãs", a presidenta recorreu à paronomásia, figura de linguagem marcada pelo emprego de palavras parecidas que formam um trocadilho e emprestam à frase um efeito interessante.
O padre Antonio Vieira, mestre do Barroco, costumava recorrer à paronomásia em seus sermões, fazendo com que suas "premissas nos levassem às primícias". Também não pude deixar de anotar a pomposa adjetivação que ouvi nos telejornais a respeito da tentativa de anular o impeachment, protagonizada pelo presidente interino da Câmara dos Deputados.
Os adjetivos utilizados pela oposição, como é típico dessa classe gramatical, revelam o juízo de valor sobre o referente, no caso, a decisão, ora chamada de "estapafúrdia" ora de "esdrúxula". Embora o contexto por si ilumine a significação, aproveitemos para enriquecer nosso repertório lembrando que o primeiro termo equivale a "esquisito" e o segundo a "extravagante".
Ah, a citada decisão ainda foi taxada de "inócua", outra expressão de interesse, cujo significado é: "aquilo que não produz o efeito desejado". E como não mencionar a condução "coercitiva", do latim "coercitio", a saber, "que obriga ou sujeita pela intimidação, pela força ou pela violência".
Mas não só de adjetivos vive a versatilidade lexical da República, visto que os substantivos também foram contemplados, tais como "leniência", que sinaliza a "brandura" dos constrangidos delatores da Lava Jato e "títere", entenda-se marionete, sugestivo termo empregado pelo deputado Pauderney (este, sim, um substantivo próprio digno de nota) ao se referir ao papel desempenhado pelo colega Waldir Maranhão.
Por último, permita-me usar outro termo que pincei da inspirada locução dos nossos políticos, para falar de minha "estupefação", leia-se pasmo, assombro, diante das recentes pérolas de Eduardo Cunha a quem, ironias à parte, cairia bem saber que não existe "membra" (assim como não existe "menas") e que o plural de réu não é "réis", embora o nome exista em sua adequada acepção monetária.