OPINIÃO
Vinte minutos para ler
14 de Outubro de 2026, 06h00
Nunca tivemos tanto acesso a textos e informações. Ainda assim, os resultados de proficiência em leitura vêm piorando consistentemente.
Os dados mais recentes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) são um alerta. Entre 35 países da organização com dados comparáveis, a média de leitura no PISA caiu 25 pontos entre 2018 e 2025 (486 em 2018, 475 em 2022 e 461 em 2025).
No Brasil, o desempenho permaneceu praticamente estável em relação a 2022 e próximo do patamar observado desde 2015. Mas estabilidade, nesse caso, está longe de ser motivo para conforto: em 2025, os estudantes brasileiros alcançaram 408 pontos, 53 abaixo da média de 461 dos países da OCDE.
Nossa mente tende a buscar explicações simples e diretas. O problema seriam as telas? A pandemia? A escola? A família? O uso de inteligência artificial? Provavelmente há vários fenômenos sobrepostos. Identificar causas plausíveis é importante, mas isso, por si só, não resolve o problema.
Há, porém, uma pergunta mais simples e incômoda: quanto tempo real estamos reservando para que crianças e jovens leiam? E nós mesmos, adultos?
Não tempo para estudar para uma prova, ler o livro obrigatório do bimestre ou produzir um resumo. Tempo para curtir uma boa história, descobrir um autor, escolher o que ler. Formar um leitor exige prática. E prática exige tempo.
Até mesmo entre quem lê, o tempo aparece como uma dificuldade. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2024, 53% dos entrevistados não haviam lido sequer parte de um livro nos três meses anteriores ao levantamento. Entre os leitores que gostariam de ter lido mais, a falta de tempo foi a razão mais citada para não fazê-lo, mencionada por 46%.
Isso não autoriza concluir que a falta de tempo explique, isoladamente, a baixa leitura no Brasil. Mostra, no entanto, que tempo não é uma questão abstrata nesse debate.
Devemos discutir também a relação que a própria escola estabelece com os livros. Frequentemente, lê-se para responder, interpretar, resumir ou ser avaliado. Todas essas atividades têm importância pedagógica. Mas, se toda leitura termina necessariamente em uma tarefa, corremos o risco de apresentar o livro apenas como o caminho para uma obrigação.
É nesse ponto que a leitura por prazer merece espaço. Reservar tempo para ler sem exigir uma tarefa significa reconhecer que a leitura também pode ter valor em si mesma. O estudante precisa ter a possibilidade de escolher, experimentar gêneros, descobrir autores e desenvolver gradualmente suas próprias preferências.
Nos colégios do Grupo Positivo, decidimos experimentar esse princípio de maneira bastante concreta: reservamos 20 minutos diários para leitura por prazer no Ensino Fundamental. O relevante nessa experiência não é apenas a quantidade de minutos, mas o que fazemos com eles. O estudante pode escolher o que ler. Pode começar por quadrinhos e depois se interessar por um romance. Pode descobrir um autor ou perceber que determinado livro não o conquistou e procurar outro.
Não estamos partindo da premissa de que vinte minutos diários produzirão, isoladamente, melhora nos indicadores acadêmicos. Esse efeito precisa ser acompanhado e medido. A experiência parte de uma constatação mais simples: é inviável criar o hábito de fazer algo para o qual nunca reservamos tempo.
E esse trabalho não pertence apenas à escola. Uma criança que nunca vê um adulto lendo recebe uma mensagem diferente daquela que cresce cercada por livros, conversas sobre histórias e pessoas que demonstram curiosidade pelo que leem. Pais e mães não precisam transformar a casa em sala de aula. Podem fazer algo muito mais simples: tornar a leitura visível.
Isso não significa transferir às famílias a responsabilidade pela formação dos leitores. As condições de acesso aos livros, ao tempo e ao repertório são diferentes. Escolas, bibliotecas e outros espaços de leitura continuam sendo fundamentais. Mas o exemplo dos adultos também ensina.
A disputa por esse tempo ficou mais difícil. O livro concorre com notificações, vídeos curtos, jogos, redes sociais e uma oferta permanente de novos estímulos. Ler exige o movimento contrário: permanecer.
É preciso acompanhar um argumento, recuperar algo lido páginas atrás, lidar com ambiguidades e continuar mesmo quando a compreensão exige esforço. Ler um livro é também aprender a não trocar de assunto a cada poucos segundos.
A inteligência artificial torna essa competência ainda mais relevante. Quanto mais simples for produzir textos e respostas, maior será a necessidade de avaliá-los criticamente, comparar fontes, identificar inconsistências e distinguir uma formulação convincente de uma informação confiável.
Essa capacidade de ler bem é essencial também para as decisões que tomamos como cidadãos e profissionais. Recebemos diariamente um volume imenso de informações, argumentos e opiniões. Sem capacidade de aprofundamento, comparação e questionamento, ficamos mais vulneráveis a aceitar respostas rasas e enviesadas.
Grandes problemas educacionais raramente admitem soluções simples. Reservar vinte minutos para a leitura não resolverá a queda da proficiência leitora nem permitirá, sozinho, explicar futuros avanços. Não é essa a proposta.
A ideia é mais simples: se queremos formar leitores, precisamos oferecer livros, estímulo, alguma liberdade de escolha, adultos que tornem a leitura visível e oportunidades regulares para ler.
Vinte minutos não parecem muito. Mas talvez seja esse o ponto: antes de exigir que uma criança ou jovem seja proficiente na leitura, precisamos garantir que tenha tempo para abrir e ler um livro que lhe agrade.
*Lucas Raduy Guimarães é presidente do Grupo Positivo