CHRISTIANY FONSECA
“Se não agora, quando?”
14 de Abril de 2020, 11h08
Prisioneiro em Auschwitz, Primo Levi, autor do livro “Se não agora, quando?”, retrata sua intensa experiência nos dramas da Segunda Guerra Mundial. Ele narra a história de um grupo de judeus que conseguem “desviar” do Exército Vermelho e atravessam a Polónia e a Alemanha rumo à Itália. Nessa caminhada eles se integram a um grupo de Resistência, no qual “vivem o medo, entram em conflito ou solidarizam entre si, já que estavam sempre rodeados pela morte”.
No olhar de Primo Levi, para além da trágica e comovente história da 2ª Guerra Mundial, foi possível construir perspectivas em meio a esse caos. O temor pela morte abriu aos personagens duas alternativas, conflito ou solidariedade. A escolha foi pela última, perceberam que somente juntos e solidários entre si, conseguiriam vencer a morte iminente.
A presença de uma pandemia desconhecida e tomada por incertezas, já deixou muitas famílias de luto e inevitavelmente deixará outras consequências que poderão ser mais ou menos trágicas.
Temos de um lado famílias reclusas em suas casas temendo pela perda de suas vidas e temos outras famílias indo as ruas pedindo o fim do isolamento, não acreditando no risco de morte.
Mais uma vez estamos escancarando para o mundo a nossa ignota polarização, fruto do ódio, da falta de humanidade e da intolerância. Por outro lado, e sendo otimista, vejo que talvez esse seja o “pulo do gato”, seja a chance de nos redimirmos e rompermos com esse maniqueísmo vazio que vem assolando nosso país.
E é nesse momento, no qual todos estarão juntando “seus cacos”, que o apoio mútuo será fundamental para diluirmos a falta de esperança e a falta de perspectivas futuras. Nesse diapasão poderá ser possível recuperarmos o respeito, a tolerância ao próximo e a humanidade adormecida.
Estamos “no mesmo barco”, ainda que segregados por “classes”. No entanto, precisamos guia-lo durante e depois desse caos. E é por esse caos que ganhamos a oportunidade de construir um novo escopo social, rompendo com o “estado de guerra de todos contra todos”, apregoado por Hobbes em sua obra, “O Leviatã”, partindo da premissa que tempos melhores virão.
Que sejamos nós, os protagonistas do livro de Pedro Levi, que experienciaram o caos da 2ª Guerra Mundial, mas encontraram também nela a força necessária para resignação e união.
“Se não for eu, quem?”
“Se não for agora, quando?”
Christiany Fonseca é analista política e professora de Sociologia no IFMT.