Uma cultura de violência
15 de Fevereiro de 2016, 08h01
A humanidade, em muitos de nós, debate-se com questões de liberdade e soberania, num mundo onde a instabilidade social e as guerras ditas preventivas pouco oferecem de tranquilo e próspero ao percurso coletivo.
No plano econômico e de forma geral a economia produtiva dá sinais negativos e a contração do consumo aperta. A desaceleração de crescimento nos gigantes emergentes, Brasil, Índia, China, junto com um potencial deflacionário na Europa e uma só aparente retoma nos USA, instam grandes desconfianças e arrastam todos os países.
As principais economias do mundo assentam o seu desenvolvimento na apropriação de riquezas naturais, obtendo-as de forma ecologicamente criminosa e com recurso a poderosas máquinas de guerra e propaganda. A prepotência com que se realiza o saque, coloca a violência não como um meio para chegar a um fim, mas um objetivo em si mesmo, no qual se realiza uma visão do mundo. Exemplo disso é o Iraque que está sendo bombardeado há vinte e três anos e onde organizações de saúde estimam em 665 mil os mortos em consequência direta e mais 500 mil decorrentes dos embargos internacionais. Uma catástrofe demográfica com repercussões complexas que em nada tornam o mundo mais seguro. Dados sobre terrorismo mundial revelam que 97% das vítimas de atos terroristas, ocorre no Oriente Médio, Magreb, África subsaariana e Ásia, com tendências a alastrar-se por todo o globo. Só a ingenuidade acredita que as intervenções militares ocidentais nesses territórios têm por objetivo distribuir a democracia aos povos locais ou combater uma religião expansionista. Trata-se sim, de uma visão do mundo levada à pratica, não pela humanidade, mas por incrível que possa parecer, por um pequeno e restrito grupo de pessoas completamente fora das reais necessidades do humano comum.
A consequente degradação do espaço social e o medo que se instala nas pessoas geram outros conflitos que os estados prontamente se propõem controlar, oferecendo uma garantia de segurança conseguida através dos seus aparelhos repressivos e a troca da liberdade individual e coletiva. A restrição de direitos numa matriz de violência traduz-se, particularmente no Brasil, sobretudo sobre jovens, negros e pobres, vítimas de atos de barbárie perpetrados na consubstancia das políticas do próprio estado. Um sério problema que urge resolver. Ou se fazem reformas agora ou esperamos pela explosão de revoltas, pois o silencio das ruas não significa a ausência do desenvolvimento de processos revolucionários. A intervenção faz acontecer e todos têm plena consciência disso, como se verificou nas manifestações populares que acorreram por todo o Brasil em 2013, onde ficou evidente a preocupação em desviar os percursos das favelas e bairros periféricos. O que aconteceu recentemente nas escolas em São Paulo é também prova disso e não menos importante demonstrou também que a inclusão social não se faz por via do consumo. A história ensina-nos que os impérios sempre acabam se desmoronando perante exigências por dignidade e liberdade, e que tal acontece independentemente do poder estar preparado, ou não, para isso.
A proposta de um pensamento único, sustentada numa cultura do medo e vendido por uma ortodoxia neoliberal fortemente ativa nas áreas econômica e financeira, detentoras de um domínio da comunicação social globalizada, são a completa negação da democracia e um verdadeiro ataque aos valores universais de liberdade e humanidade. Quando percebemos que a democracia com grande esforço e ainda de forma muito limitada, vai aos pouco introduzindo orientações econômicas mais justas e de sinal contrário aos interesses exclusivamente financeiros das grandes corporações transnacionais, não podemos deixar de nos preparar para receber o endurecimento de mais ataques aos direitos e à soberania. Mais do que nunca o respeito pelos fundamentos da democracia está em questão.
A busca pela legitimidade das ações ajudará a iluminar as reflexões que precisam ser feitas no enfrentamento dos desafios sociais, ambientais e estratégicos que temos pela frente.