OPINIÃO
O Proálcool estava certo antes do mundo perceber
15 de Junho de 2026, 06h21
Em 1975, em plena crise internacional do petróleo, o Brasil tomou uma decisão que soaria ousada para os padrões da época. Criou o Proálcool, um programa nacional estruturado para produzir energia a partir da cana-de-açúcar. Poucos imaginavam, naquele momento, que essa escolha se tornaria uma das iniciativas mais visionárias da história da política energética mundial.
A lógica era clara, embora sua execução exigisse coragem política e visão de longo prazo. Era preciso reduzir a dependência do petróleo importado e construir uma alternativa energética nacional baseada em recursos renováveis e em tecnologia própria. O programa mobilizou pesquisa agrícola e industrial, indústria automotiva, infraestrutura de distribuição e capacidade produtiva em toda a cadeia.
Durante muitos anos, o Proálcool foi alvo de ceticismo. Críticos questionavam sua viabilidade econômica e apostavam que o etanol seria apenas uma solução temporária, destinada a desaparecer quando os preços do petróleo recuassem. O tempo mostrou o contrário.
Décadas depois, o mundo passou a enfrentar exatamente os problemas que o Brasil tentava antecipar, como insegurança energética crônica, volatilidade brutal nos preços do petróleo e pressão crescente por descarbonização. Segurança energética e transição para fontes renováveis tornaram-se temas prioritários das agendas globais e o Brasil já chegou a essa discussão com experiência acumulada de meio século.
Enquanto países desenvolvidos buscam reduzir dependência externa, diversificar fontes de energia e construir modelos menos vulneráveis às crises internacionais, o Brasil já dispõe de uma cadeia produtiva consolidada, tecnologia madura e capacidade industrial em larga escala.
Poucos países conseguiram desenvolver um sistema de biocombustíveis com o mesmo nível de integração entre agricultura, indústria, logística e mercado consumidor.
O mais interessante é perceber que a discussão atual não se resume mais apenas à questão ambiental. O debate tornou-se econômico, estratégico e geopolítico. Produzir energia dentro do próprio território passou a representar estabilidade, competitividade e soberania, exatamente o que o Proálcool começou a construir em 1975.
O programa talvez tenha sido uma das poucas políticas públicas brasileiras capazes de atravessar décadas mantendo relevância crescente. Mais do que substituir combustíveis fósseis, o Proálcool revelou uma visão de futuro que o mundo demorou décadas para compreender.
Hoje, enquanto diversas nações buscam caminhos para uma nova era energética, o Brasil percebe que parte dessa resposta já começou a ser construída há quase cinquenta anos.
*J. A. Puppio é empresário e autor do livro “Impossível é o que não se tentou”