OPINIÃO

A nova diáspora brasileira: por que famílias inteiras estão planejando a vida fora do país

por Rafael Gianesini

16 de Fevereiro de 2026, 06h00

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Divulgação

Nos últimos anos,  o desejo de internacionalização do brasileiro atingiu um novo patamar de maturidade e planejamento. Segundo uma pesquisa nacional realizada pela Febraban no final de dezembro de 2025, quase metade dos brasileiros manifesta o desejo de deixar o país, com um destaque impressionante para a Geração Y (nascidos entre 1980 e 1995), onde 50% dos entrevistados afirmam querer morar no exterior. Mais do que um número isolado, o levantamento revela uma preferência clara pela Europa (60% das menções). Esse movimento migratório atual não é apenas uma fuga econômica, mas uma busca estruturada por qualidade de vida, resgate de identidade e segurança, consolidando a cidadania como um projeto central das famílias brasileiras.

É fato que a busca pela cidadania europeia se tornou o novo foco do investimento familiar. Se antes os pais poupavam para a faculdade dos filhos no Brasil, hoje o investimento é direcionado a processos de reconhecimento de outras nacionalidades — principalmente italiana, portuguesa e alemã. Os pontos de partida são, normalmente, os avós, que se baseiam em uma memória que antes parecia distante: um antepassado que cruzou o Atlântico fugindo da guerra ou da fome, agora é um ativo jurídico. Ao regularizar documentos antigos, as famílias operam uma "migração reversa”, onde o descendente retorna ao solo de onde seu parente partiu, fechando um ciclo.

Contudo, diferente das saídas motivadas por crises econômicas, o movimento atual da Geração Y é de estratégia de longo prazo. Sendo assim, casais de classe média e alta estão estruturando a saída com anos de antecedência, iniciando o planejamento na validação de diplomas e o aprimoramento de idiomas antes mesmo de comprar as passagens, passando pela escolha da escola dos filhos, priorizando currículos internacionais, e terminando na segurança, focando no “ganho de paz" — segurança pública, previsibilidade econômica e o direito de caminhar na rua. 

Outra discussão profunda que essa onda migratória traz está relacionada à identidade, já que muitos brasileiros procuram redescobrir as suas raízes. Assim, o processo burocrático de busca por certidões em pequenas comunas na Itália ou aldeias em Portugal gera um sentimento de pertencimento que vai além do documento plástico, se transformando em uma jornada afetiva e criando uma ancoragem histórica. Ao folhear registros antigos e localizar as coordenadas geográficas de onde seus antepassados partiram, as famílias resgatam narrativas silenciadas pelo tempo, transformando nomes em árvores genealógicas vivas.

Em suma, a nova diáspora brasileira redefine o conceito de herança para as próximas décadas. O que vemos não é um abandono da identidade nacional, mas uma expansão de horizontes onde o passaporte europeu se torna o maior patrimônio de uma família. Assim, ao transformar o passado em uma estratégia de futuro, os brasileiros da Geração Y estão garantindo que o legado de seus antepassados não seja apenas uma memória guardada. No fim das contas, essa migração planejada prova que pertencer a mais de um lugar é a forma mais sólida de garantir segurança, raízes e um destino sem fronteiras para as gerações que virão.

*Rafael Gianesini é CEO e co-fundador da Cidadania4U - primeira empresa brasileira criada com o objetivo de auxiliar pessoas a obter a cidadania europeia de forma transparente e prática e em um ambiente 100% online.