Viagem ao caos: Transporte Coletivo Cidade de Pedra

por Por Vanusa Rodrigues

16 de Maio de 2012, 08h41

Viagem ao caos: Transporte Coletivo Cidade de Pedra
Viagem ao caos: Transporte Coletivo Cidade de Pedra

Vanusa Rodrigues é estudante de psicologia da UFMTSexta, um dia muito esperado para muitos que trabalham a semana inteira e também para mim que sou estudante e espero ansiosamente a chegada do fim de semana. Mas antes que tal desejo se concretizasse, às 16h50min saí de minha casa e me dirigi ao ponto de ônibus da av. Marechal Rondon, próximo à loja Bazar Santo Antônio, no centro de Rondonópolis, no intuito de cumprir a última atividade da semana, participar de um grupo de arte e cultura que está se iniciando no âmbito da Universidade Federal.

Pelo horário fixado no site do Transporte Coletivo Cidade de Pedra, o ônibus Atlântico - Via Cophalis deveria partir do ponto da antiga rodoviária às 17h05min. Bom, vale dizer que eu embarquei no ônibus eram 17h15min. Ok, tudo bem, imprevistos acontecem, tem o trânsito da hora do rush também. Pensei que estava com sorte já que havia ainda lugares vagos para sentar. Já no ponto terminal da antiga rodoviária, percebo que a viagem talvez demorasse além do esperado, e as pessoas não paravam de embarcar. Ok, é normal, dia de semana, hora do rush.

No entanto a situação tornou-se insuportável antes mesmo que o ônibus pudesse deixar o centro da cidade. Já próximo à prefeitura, o ônibus estava superlotado. Daí para frente o que se viu foi um caos total. Mesmo sentada eu era espremida pelos passageiros que estavam em pé, uma situação sufocante. Havia pessoas sentadas no motor do ônibus, nos degraus das portas de entrada e saídas. Crianças e idosos esmagados na multidão. Um cidadão, consciente dos seus direitos alertou o motorista: "oh motorista, aqui não cabe mais gente não, isso aqui não é carro de boi!" Um comentário geral tomou conta e a insatisfação era evidente. Eu estava saindo de casa para me dirigir a UFMT, mas a maioria estava saindo de uma jornada longa de trabalho, cansados, e o mínimo exigido era dignidade no meio de transporte coletivo oferecido a população.

Maior foi a minha surpresa, quando o motorista se levantou do banco, subiu em cima do motor, olhou para o fundo do ônibus e gritou, enfático: "tem muito lugar aí, daqui to vendo espaço, vamos apertando aí que cabe, não posso deixar ninguém no ponto". Não foi preciso dizer que o motorista foi vaiado, somente ele estava vendo "espaço". Mas nem toda opinião é unânime e havia lá, sentada em cima do motor, uma pessoa que se compadeceu do motorista e levantou a voz em sua defesa: "Calem a boca, seus f. da p., parem de reclamar, desçam do ônibus e comprem um carro". Aquele cidadão anterior que primeiro reivindicou seus direitos, respondeu aquela mulher: "Eu não vou descer não, eu paguei, eu vou andar nessa p., aqui tem criança e idoso espremido, todo dia é assim".

Daí para frente eu não posso dizer com precisão as palavras ditas, pois todos passaram a falar ao mesmo tempo. De vez em quando eu ouvia um xingamento daqui, outro dali, e ofensas pesadas partiam da senhora sentada no motor, que parecia mesmo engajada na causa. Em meio a esse caos eu ouvi essa senhora dizer: "vai embora daqui, seu bororo, volta pra sua terra." Percebi então que a discussão concentra-se na senhora sentada no motor e no rapaz "bororo". Ele retrucou: "você é uma ignorante, sem educação". Ela diz: "eu não tenho educação mesmo não, vai te catar".

As pessoas já exaltadas com a situação (o motorista continuava embarcando pessoas) passaram a ofender diretamente a senhora sentada no motor. Ela, então pegou o seu celular e diz ter ligado para a polícia. Ao telefone ela relatou: "eu tô aqui com um bando de f. d. p. no ônibus, esses babacas, idiotas, vagabundos..." Acho que o policial não deu muita atenção a senhora, já ela logo em seguida desligou o celular. Logo após outra situação causou revolta: um idoso foi prensado na porta ao tentar descer do ônibus. Mais uma vez foi uma avalanche de reclamações. Calmamente o motorista também reclamou: "se vocês ficam demorando pra descer, eu fecho mesmo a porta." Mais vaias e gritos. O motorista então decide que há uma solução melhor para o problema, sobe mais uma vez no motor para fazer-se bem audível: "Oh moça que tá encostada aí perto do espelho, saí daí que assim não tem como eu ver quem tá descendo." Essa eu também ajudei a responder: "Sair pra onde? Não tem espaço!" Outros responderam: "vamos colocar ela pra sentar aí na sua cabeça." A senhora do motor vai mais longe: "essa menina quer mesmo sentar é no colo do motorista".

Já estávamos na entrada no Jardim Atlântico quando os ânimos se acalmaram, apesar da senhora sentada no motor que ainda timidamente xingava os passageiros do ônibus. Rodas de discussões podiam ser ouvidas por todo o ônibus. Dentro do Jardim Atlântico o ônibus esvaziou-se e as pessoas que iam embarcando não tinham ideia do que havia se passado naquela viagem. No último ponto antes de entrar na UFMT, o rapaz, apelidado de "bororo" pela senhora que ainda estava sentada no motor, antes de desembarcar gritou: "valeu motorista roda dura". A senhora enfim levantou-se do motor e colocou a cabeça pela janela para proferir essas palavras: "se eu tivesse uma arma, eu te matava, seu idiota, f.d.p., olha como você está vestido, malandro, vagabundo, bororo, volta para sua terra..." Tamanha era a ofensa que até o motorista, que tinha partilhado do mesmo sentimento que sua passageira, achou exagerado: "calma, deixa pra lá..." No próximo ponto ela desceu, e eu também. Cheguei ao meu destino às 18h00min.

Informações importantes:

 - A viagem ocorreu dia 11/05/12 com o ônibus de número 191, linha Atlântico - Via Cophalis das 17h05min.

- Semana passada o valor da passagem teve reajuste: de R$2,40 foi para R$ 2,60.

Vanusa Barbosa Rodrigues, rondonopolitana, usuária do transporte público desde o nascimento, há mais de 24 anos.