DOENÇA CRÔNICA

Obesidade pode ser prevenida na infância

Quatro em cada cinco crianças obesas permanecerão obesas quando adultas

por Redação com assessoria

17 de Fevereiro de 2018, 07h00

Obesidade pode ser prevenida na infância
Obesidade pode ser prevenida na infância

Mais de 50% da população adulta brasileira está com sobrepeso ou obesidade. Em boa parte dos casos, a doença crônica acompanha a pessoa desde a infância. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), quatro em cada cinco crianças obesas permanecerão obesas quando adultas. "Isso porque a obesidade nesta fase não reflete apenas na mudança da balança, mas em uma alteração metabólica que influencia toda uma vida. Os hábitos infanto-juvenis são determinantes para o que será o adulto do futuro", alerta Caiaque Souza, médico nutrólogo da Clínica da Obesidade.

 Os períodos mais críticos para o desenvolvimento da obesidade são os primeiros dois anos de vida e a adolescência. Se os pais já forem obesos, o risco de adquirir a doença é ainda maior. Mas muito além dos determinantes biológicos, o ambiente em que se vive exerce forte influência na vida de uma pessoa. "Tem sim a questão da carga genética, mas, antes de mais nada, os hábitos dos responsáveis influenciam diretamente na rotina das crianças e dos adolescentes. Pais com hábitos inadequados não têm cuidados com eles mesmos e, muitas vezes, inserem a criança neste mesmo cenário. A priori, o adulto não vê grande problema, mas é sim um grande risco. Compulsoriamente estas crianças não têm escolha, porque estão sob orientação dos pais", adverte o nutrólogo.   

A preocupação com a alimentação é de extrema importância e deve partir desde o pré-natal, com ações educativas focadas nos pais para a promoção da alimentação saudável e do aleitamento materno. Com os adolescentes, uma rotina saudável, até em períodos de férias escolares, pode ser determinante para a vida adulta. "A criança precisa do exemplo dentro de casa a todo momento. Ela não vai estar pronta. Precisa da rotina diária e ter, sobretudo, o exemplo dos pais. A melhor forma de ajudar é mostrar isso dentro de casa, mostrar opções saudáveis", reafirma Caiaque.

Novos hábitos

A dica é manter uma alimentação pouco calórica e muito nutritiva. Evitar, ao máximo, a ingestão de açúcar, gordura saturada e sal. Os enlatados e os demais produtos industrializados precisam ser retirados da alimentação diária, incentivando sempre o consumo de frutas, verduras e legumes. "Para resistir ao tempo, os produtos industrializados costumam ter muito conservantes. Um suco de laranja natural, por exemplo, não dura mais de dois dias numa geladeira. Já o industrializado, tem mesmo quanto tempo de validade? Será que isso é mesmo bom para a nossa saúde?", questiona o médico.

Cabe, também, aos responsáveis pela criança ou pelo adolescente estimular a prática da atividade física. Em uma semana de 168 horas, é preciso dedicar apenas 2,5 horas a atividades físicas para já ter grandes benefícios. Além disto, é preciso se atentar às horas adequadas de sono, beber bastante líquido e controlar o tempo de tela a que crianças e adolescentes estão submetidos. "A obesidade é multifatorial. Não tem como destacar apenas um fator específico para a causa, mas o fato da globalização e da disponibilidade de tantos dispositivos tecnológicos, como tablets, têm feito com que a criança fique presa a estes aparelhos e diminua o convívio social", pondera Paulo Laborda da Cruz, psicólogo da Clínica da Obesidade, que é gestalt terapeuta, especialista em Terapia Transpessoal Sistêmica (TTS) e em constelação familiar.

Estigmatização

Além de trazer riscos à vida, a obesidade infanto-juvenil pode trazer transtornos psicológicos a uma criança ou um adolescente. "É a inserção dela na inclusão perversa. À medida que fica inibido por questões estéticas, por conta dos símbolos adquiridos socialmente, como o conceito da beleza, o indivíduo passa a não se sentir incluído e sofre com estas inserções sociais. Ele não pode desfrutar das mesmas relações sociais que outras pessoas e passa a ser uma referência negativa. Busca, então, preencher este vazio com uma compulsão. Quando novos, uma das mais fáceis é a alimentar", explica o psicólogo.   

Perigos como estes foram alertados numa pesquisa recente da Academia Americana de Pediatria e da Obesity Society. As instituições ponderaram que o estigma contribui, ainda, para o isolamento social, diminuição da atividade física e aumento de peso, que pioram a obesidade e criam obstáculos adicionais para a mudança de comportamento saudável. "Estes distúrbios psicossociais contribuem para que o sujeito possa sofrer uma depressão, inclusive. A criança precisa ser observada de perto. Obesidade é uma patologia e não pode ser vista como uma besteira. Os pais, muitas vezes, incentivam uma alimentação desequilibrada por acreditar que crianças que comem muito são sadias. Gordinho é engraçado, gordinho é feliz. Não! Muitas vezes a pessoa assume este papel apenas para se reintegrar à sociedade que ele deixou de pertencer", alerta Paulo.