OPINIÃO

A cor das paredes da infância ainda pinta quem somos

por Soraya Medeiros

17 de Fevereiro de 2026, 06h00

None
Divulgação

As memórias mais profundas não vivem no que conseguimos contar, mas no que o corpo insiste em sentir. Datas se perdem; sensações ficam. Pergunte a alguém sobre a infância e talvez lhe falte precisão. Mas pergunte pela cor das paredes do quarto, pelo cheiro da casa da avó ou pelo sabor do lanche depois da escola — e uma geografia afetiva inteira se acende.

Na minha infância, as paredes eram de um amarelo suave: luz de fim de tarde eternizada. Não o amarelo estridente das escolhas apressadas da vida adulta, mas um tom que parecia acolher o sol e devolvê-lo ao aconchego. Esse amarelo tinha gosto de mingau com canela nas manhãs frias e cheiro de roupa limpa no armário de madeira.

A felicidade cabia em cenas pequenas: bolhas de sabão no ar, desenhos aos sábados com achocolatado espumoso, a aspereza do tronco da árvore onde eu erguia castelos imaginários. Havia o cheiro que antecede a chuva — terra molhada, um leve ozônio no ar — anunciando o tempo de contemplar a vida da varanda ou tomar banho de chuva, como quem lava até os pensamentos. A alegria tinha sabor de fruta colhida do pé e de pão quente com manteiga; tinha o som de risos vindos da cozinha e o abrigo de um cobertor nas noites frias.

Gaston Bachelard, em A Poética do Espaço, ajuda a entender por que essas imagens permanecem. Ao falar da “topoanálise”, mostra como os lugares da intimidade nos constituem. A casa da infância não é cenário: é território emocional que carregamos por dentro. É ali que se forma nosso primeiro universo.

Aquelas paredes amarelas não eram tintas: eram continentes emocionais onde se desenrolaram os primeiros dramas e encantamentos. Cada canto, cada sombra, cada fresta de luz compunha um “espaço feliz” que, sem percebermos, nos moldava. Mudamos de endereço, de cidade, de vida — mas as geografias íntimas nos acompanham.

Hoje, percebo esse diálogo nas escolhas do presente: tons terrosos, amarelos suaves, verdes que acalmam. O paladar ainda busca o conforto dos sabores simples — não por saudosismo, mas por reconhecimento. O tato pede materiais que contam histórias e imperfeições que aquecem mais do que o brilho frio do novo.

A memória não é arquivo; é reconstrução. Um cheiro ou uma música não nos levam apenas a um lugar: devolvem um estado de ser. A criança que fomos não se perdeu; ela nos encontra por chaves sensoriais.

Perguntar pela cor das paredes da infância é perguntar pela nossa primeira linguagem — a dos sentidos, anterior às palavras. O que importa não é a exatidão do fato, mas a verdade emocional que permanece. Talvez o trabalho da vida adulta não seja superar a infância, mas traduzi-la para o presente. Fica a pergunta: qual é a cor das nossas paredes interiores hoje?

*Soraya Medeiros é jornalista