CARNE FRACA

Operação da Polícia Federal faz Maggi cancelar afastamento de 10 dias

Investigação denuncia venda de carne vencida com aval de servidores do Mapa

por Robson Morais

17 de Março de 2017, 12h13

Operação da Polícia Federal faz Maggi cancelar afastamento de 10 dias
Operação da Polícia Federal faz Maggi cancelar afastamento de 10 dias

Após comunicar oficialmente seu pedido de licença do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento -Mapa por um período de dez dias, o ministro Blairo Maggi -PP voltou atrás. Em nota, publicada em sua página oficial em uma rede social, o chefe da Pasta disse ter cancelado o pedido após analisar apurações da Polícia Federal na condução da Operação Carne Fraca.

Ontem, 16, Maggi emitira outra nota, explicando o motivo de sua ausência e anunciado o Secretário Executivo Eumar Novacki como ministro interino. Após a deflagração da Operação, que investiga venda de carne vencida e estragada dentro e fora do Brasil por um dos maiores frigoríficos do país, teve de recuar.

Abaixo a nota:

Bom dia, diante dos fatos narrados na Operação Carne Fraca, cuja investigação começou há mais de dois anos, decidi cancelar minha licença de 10 dias do MAPA. O que as apurações da Polícia Federal indicam é um crime contra a população brasileira, que merece ser punido com todo o rigor.

Neste momento, toda a atenção é necessária para separarmos o joio do trigo. Muitas ações já foram implementadas para corrigir distorções e combater a corrupção e os desvios de conduta, e novas medidas serão tomadas. Estou coordenando as ações, já determinei o afastamento imediato de todos os envolvidos, e a instauração de procedimentos administrativos. Todo apoio será dado à PF nas apurações. Minha determinação é tolerância zero com atos irregulares no MAPA.

A operação

A Polícia Federal -PF cumpriu, na manhã de hoje, 17, 309 mandados judiciais em seis estados e no Distrito Federal. A operação Carne Fraca, apura o envolvimento de fiscais do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento -Mapa em um esquema de liberação de licenças e fiscalização irregular de frigoríficos.

Segundo a polícia trata-se da maior operação já realizada pela PF no país. Pela manhã, funcionários do ministério foram detidos. O que sabe até agora é que agentes do governo teriam recebido propina para liberar licenças e algumas das maiores empresas do setor seguem investigadas por suspeita de venda de carne estragada nos mercados interno e externo.  Ao todo 1,1 mil policiais cumprem mandados: 27 são prisão preventiva e 11 de prisão temporária.

Entre as empresas envolvidas estão a BRF Brasil, que controla marcas como Sadia e Perdigão, e também a JBS, que detém Friboi, Seara, Swift, entre outras marcas. Além destas, a operação Carne Fraca atinge empresas menores, como a Mastercarnes, Souza Ramos e Peccin, do Paraná, e Larissa, que tem unidades no Paraná e em São Paulo.

Em resposta ao site de notícias G1, a JBS disse não ter informação de que algum executivo seu foi preso e informou que não há operação da PF na empresa. A reportagem tenta contato com os demais citados pela Polícia Federal.

Gravações telefônicas obtidas pela PF apontam que vários frigoríficos do país vendiam carne vencida tanto no mercado interno, quanto para exportação. Entre produtos químicos e produtos fora da validade, há casos de a inserção de papelão em lotes de frango e carne de cabeça de porco em linguiça, além de troca de etiquetas de validade.

"Eles usam ácidos, outros produtos químicos, para poder maquiar o aspecto físico do alimento. Usam determinados produtos cancerígenos em alguns casos para poder maquiar as características físicas do produto estragado, o cheiro", afirmou ao G1 o delegado federal Maurício Moscardi Grillo.

Ministro citado

O recém empossado ministro da Justiça, Osmar Serraglio -PMDB, apareceu na investigação da operação Carne Fraca. Em uma conversa grampeada, Serraglio chama o ex-superintendente regional do Mapa, Daniel Gonçalves Filho, de "grande chefe".

Serraglio ocupou a vaga deixada pelo então ministro Alexandre de Moraes, indicado pelo presidente Michel Temer-PMDB para assumir vaga no Supremo Tribunal Federal- STF.  "Sentimos que não havia crime por parte do tal ministro. Porém, por cautela, foi necessário fazer esse informe para não sermos questionados", afirmou o delegado Maurício Moscardi Grillo. Segundo ele, o que for referente ao ministro será encaminhado à Procuradoria-Geral da República.

Sul, Sudeste e Centro-Oeste

Ainda segundo a PF, diretores e donos das empresas estariam envolvidos diretamente nas fraudes, que contavam com a ajuda de servidores do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, no Paraná, Goiás e Minas Gerais. No Paraná, há ramificações em Londrina, no norte do estado, em Castro, nos Campos Gerais, e em Foz do Iguaçu, na região oeste do estado. No Rio Grande do Sul, são cumpridos mandados nas cidades de Gramado e Bento Gonçalves.

Em Goiás, foram cumpridos 13 mandados judiciais em Goiânia, sendo 1 de prisão preventiva, 4 de conduções coercitivas e 8 de busca e apreensão. Em São Paulo, são 18 mandados no total, sendo 8 de busca e apreensão, 3 de prisão preventiva, 1 de prisão temporária e 6 de condução coercitiva, todos na capital.

 

Com informações apuradas pelo site G1