OPINIÃO

Cuca e o Menino Amarelinho

por Fabiano Guimarães de Andrade

17 de Abril de 2023, 16h36

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Divulgação

Quando eu era criança, brincava solto na floresta, conhecia cada

canto da pequena fazendinha onde eu morava, corria para lá e pra cá

como quem estava na melhor das aventuras, pesquisando e

investigando cada canto, como se soubesse que, entre aquelas árvores,

havia um mistério esperando para ser descoberto.

Certo dia, quando estava no meio da tarde, resolvi sair em busca

de aventura, de alguma coisa que me libertasse do tédio típico das

tardes quentes na fazendinha. Peguei meu bornal de retalhos que

ganhei, selecionei duas ou três maçãs, um saquinho de biscoito, um

pouco de água e coloquei tudo no bornal. Depois de tudo pronto,

pus-me a caminhar num trieiro largo, que foi se afunilando conforme me

afastava da fazenda. Esse caminho tem como destino o rio que marca

os limites do lugar onde eu morava, das minhas aventuras e da parte da

floresta que eu conheço.

Sempre fui um menino obediente, educado, de ações refinadas e

louváveis. Mas, naquele dia, algum fato de ordem metafísica me induziu

a desobedecer as regras estabelecidas a mim e eu decidi cruzar o rio e

explorar a floresta que existe do outro lado. Então, com um pouco de

medo e bastante coragem, entrei na água, que alcançou a altura do

umbigo no ponto mais profundo.

Ao chegar do outro lado do rio, não reconheci muita diferença na

paisagem, as plantas e os insetos são semelhantes às da outra

margem, com exceção do trieiro que estava cheio de mato como se não

fosse usado há muito tempo. Apesar de sentir uma pontinha de medo

quando comecei a caminhar no trieiro, segui mata adentro em busca da

minha aventura. Depois de caminhar por uns 5 minutos, encontro

rastros de um animal que não consigo identificar. O rastro exibia uma

semelhança com patas de lagarto, mas, o tamanho era incompatível e,

também, as pegadas eram de um bípede, inviabilizando a ideia de um

lagarto grande ter passado por ali. Resolvi seguir adiante por mais

alguns minutos na expectativa de encontrar o dono das pegadas.

Depois de mais dois minutos caminhando, ouço gritos

desesperados de socorro, a voz parecia ser de uma pessoa meio velha.

Pus-me a caminhar em direção ao som dos pedidos de socorro. Não

demorou muito, encontrei o local de origem das súplicas desesperadas,

mas não consegui me mexer por uns 30 segundos. Tratava-se de uma

coisa meio humana meio réptil com rosto, pele e pés de jacaré, cor

verde e, ao mesmo tempo, mãos com anatomia humana, cabelos louros

grandes e sedosos. O tempo paralisado não serviu para pensar se

ajudaria ou não aquele ser que estava preso em uma armadilha de

caça, pendurada pelos pés em um pé de manga que ficava a poucos

metros da trilha em que eu caminhava.

O instinto moral pulsava forte para ajudar, pois trata-se de alguém

em apuros, precisando muito da minha ajuda para se livrar de uma

situação que poderia ser mortal, mas, ao mesmo tempo, eu poderia

estar soltando o monstro que atacaria-me brutalmente. Diante desse

dilema nunca antes vivido por mim, lembrei de uma história que me

contaram na escola. Essa estória falava sobre um médico que, levado

pela sua arrogância, narcisismo e egoísmo criou um ser que tinha

características físicas horripilantes e, por conta disso, era rejeitado pelas

pessoas que só viam o monstro exterior, não percebiam que aquele

monstro era um ser sensível e amável. A grande lição dessa estória é

que a aparência não representa o coração, a maldade não é feia nem

bonita, ela só é má.

Depois dessa breve lembrança epifânica, resolvi correr e desatar

o nó que sustentava a corda tensionada, fazendo com que a mulher

com aparência de jacaré caísse no chão. Depois fui ajudá-la a desatar o

nó que prendia seus pés. Ela me agradeceu e perguntou o que eu fazia

na mata sozinho, respondi que estava explorando o lugar e perguntei

quem ela era. Dando um salto e fazendo uns gestos engraçados, ela

disse que se chama Cuca e que era uma bruxa da floresta, dei um salto

e me preparei para sair correndo, pois já tinha ouvido falar dela através

das histórias contadas por minha avó. Gargalhando, ela se adiantou e

disse que eu não precisava ter medo, que estava agradecida por tê-la

salvado. Perguntei se ela era má como nas histórias que contavam e ela

disse que, apenas, defendia a floresta, a origem da fama negativa vinha

de histórias contadas e recontadas por homens que querem por medo

em outros homens.

Depois de tê-la libertado e conversado um pouco, resolvi voltar

para minha casa, pois o tempo havia passado, demasiadamente, rápido

e o crepúsculo começava a preparar o palco para a chegada da noite.

Durante a despedida, não percebi que tinha nascido ali uma nova

amizade para me acompanhar nas aventuras e que essa amizade

duraria a vida toda. A bruxa Cuca me ensinou o caminho para a sua

caverna e disse que aguardava meu retorno e eu, o Menino Amarelinho,

confirmei presença.

Pus-me a caminhar de volta para casa e, no caminho, só consegui

pensar em como estava feliz por ter feito uma nova amiga bruxa.

 Fabiano Guimarães . Cuca e o Menino Amarelinho.

Rondonópolis, janeiro de 2023.