OPINIÃO

Para combater o sarampo, a vacina é fundamental

por Natasha Slhessarenko

17 de Maio de 2022, 08h52

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Divulgação

Mato Grosso infelizmente registrou seu primeiro caso de sarampo, na cidade de Tangará da Serra. Uma criança de cinco anos teve o diagnóstico confirmado pela Secretaria de Saúde do município no dia 11 de maio. O sarampo é uma doença viral, transmitida por gotículas de saliva, altamente contagiosa e que pode levar à morte, especialmente em crianças menores de 5 anos, imunodeprimidos e desnutridos.

Para se ter uma ideia da contagiosidade do sarampo, um indivíduo infectado pode transmitir o vírus para até 18 pessoas, enquanto que a COVID-19, quando a pandemia iniciou, uma pessoa infectada transmitia para 2 a 3 outras pessoas.

O boletim epidemiológico do Ministério da Saúde aponta que desde 2018 foram registrados no Brasil mais de 40 mil casos de sarampo e 40 mortes foram causadas pela doença, sendo mais da metade em crianças menores de 5 anos. Até março deste ano, o Ministério confirmou 14 infecções pelo vírus, sendo dois casos em São Paulo e 12 no Amapá.

Até então os casos registrados no país não eram autóctones, ou seja, eram importados, tinham origem fora do Brasil. Agora essa realidade já mudou, as pessoas contraíram o vírus no próprio território brasileiro, ou seja, o vírus está circulando entre nós.

Os sintomas clássicos do sarampo são febre acompanhada de manchinhas vermelhas no corpo (exantema), além de tosse, irritação nos olhos (conjuntivite), nariz escorrendo ou entupido.

O exantema surge por volta do 4º dia de evolução da doença, iniciando atrás da orelha e, em aproximadamente 3 dias, atinge todo o corpo, concomitantemente há intenso mal-estar. A persistência da febre além de 3 dias e agravamento dos sintomas sinalizam complicações da doença, principalmente em crianças com menos de 2 anos. Importante ressaltar que não são só crianças que desenvolvem o sarampo.

O avanço dos casos no Brasil ocorreu em um intervalo de dois anos. Basta observarmos que em 2016 chegamos a receber uma certificação de país livre do sarampo pela Organização Panamericana de Saúde (Opas), o braço da Organização Mundial de Saúde (OMS) para as Américas. O Brasil permaneceu com esse status em 2017. Já em 2018 começou-se a registrar as infecções pelo vírus do sarampo. Somente naquele ano foram 10 mil casos. Esse revés ocorreu em virtude da baixa cobertura vacinal.

A única forma de evitar a doença é através da vacina. Entretanto, em lactentes cujas mães já tiveram a doença ou tomaram a vacina, anticorpos temporários passam da mãe através da placenta e pelo leite materno, protegendo estas crianças ao longo do primeiro ano de vida. Esta é a razão da vacina ser dada aos 12 meses. Em situações de aumento dos casos, a vacina pode ser feita aos 6 meses.

Muito antes da pandemia, já existia um movimento antivacina no mundo, que ganhou força após publicação de um estudo falso assinado pelo médico inglês Andrew Wakefield e publicado pela revista científica The Lancet, em 1998, que ligava a vacina tríplice viral (combate sarampo, caxumba e rubéola), ao surgimento do transtorno do espectro autista.

Estudos realizados posteriormente, o maior deles na Dinamarca, comprovaram que a afirmação não passava de uma falácia. Estudos subsequentes apresentaram evidências contundentes de fraude, manipulação dos dados e conduta antiética. O médico Andrew Wakefield teve sua licença médica cassada e a revista anulou o artigo, mas o efeito devastador sobre a saúde pública já tinha acontecido.

Não há qualquer relação do imunizante com o transtorno.

A pandemia de COVID-19 contribuiu muito para a queda das coberturas vacinais. O medo de contrair o vírus, que já matou mais de 665 mil pessoas no país, fez com que as famílias deixassem de se deslocar até o posto de saúde mais próximo para vacinar as crianças.

A vacina contra o sarampo é aplicada quando a criança está com 12 meses. Atualmente não temos uma vacina exclusiva para sarampo, ela é a tríplice viral, que protege contra sarampo, rubéola e caxumba. Aos 15 meses se faz a 2ª dose com a vacina tetraviral, que além das doenças protegidas pela tríplice viral, protege também contra a varicela (catapora).

Neste momento, o Ministério da Saúde está fazendo campanha de vacinação contra o sarampo e a gripe. Crianças menores de 5 anos devem ser imunizadas. Vacine o seu filho (a). É só com uma ampla cobertura vacinal que vamos conseguir derrotar, de uma vez por todas, o sarampo. Nunca é demais lembrar, a vacina salva vidas.

Natasha Slhessarenko é médica pediatra e patologista clínica e está pré-candidata ao Senado pelo PSB.