OPINIÃO

Ensino integral não é solução para todos os problemas da educação

por Damila Bonato

18 de Fevereiro de 2026, 07h19

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Divulgação

Aulas, atividades extracurriculares, serviços, tempo livre, brincadeiras: o combo do ensino integral, que ganhou força legítima na agenda pública ao longo dos últimos anos, representa, de fato, um avanço significativo para a qualidade do ensino oferecido nas escolas brasileiras. Em muitas redes, esse modelo é visto como uma resposta para reduzir desigualdades, ampliar experiências pedagógicas e dar suporte às famílias. Não podemos, entretanto, tratá-lo como uma panaceia. Embora ajude, o ensino integral não resolve sozinho todos os problemas profundos da educação no país. E, para que gere impacto real, precisa andar de mãos dadas com outros fatores, como qualidade de ensino, formação docente, infraestrutura, gestão e políticas socioeconômicas mais amplas.

Já sabemos, com respaldo da ciência, que aumentar o tempo na escola tende a provocar efeitos no processo de ensino e aprendizagem. Esses efeitos, contudo, não são sempre positivos, mas variáveis. Dependem enormemente de como esse tempo adicional é usado no contexto do ambiente escolar. Estudos recentes mostram resultados mistos. O relatório do Banco Interamericano de Desenvolvimento sobre dias e jornadas estendidas sintetiza estudos de diferentes países e conclui que, embora os efeitos em aproveitamento acadêmico sejam modestos, há benefícios em redução de abandono escolar e gravidez na adolescência, além de  ganhos socioemocionais quando o tempo extra inclui uma programação bem desenhada.

A fórmula do ensino integral parece ser intuitiva: ter mais horas na escola permite abranger mais conteúdo e oferecer reforço, atividades socioemocionais e atendimento diferenciado. Mas a experiência mostra que tempo sem direção pedagógica é só mais tempo de ocupação. Um espaço ampliado replicando aulas tradicionais ou despejando crianças em atividades mal planejadas pode até ampliar a fadiga, tanto de professores quanto de estudantes. A diferença está sempre na qualidade da concepção e da execução — não apenas na duração do dia escolar.

Há ainda outras camadas que o ensino integral não resolve sozinho. Desigualdade material (falta de saneamento, insegurança alimentar, moradias precárias) e precariedade da formação inicial de professores, por exemplo, corroem qualquer tentativa de melhora apenas ampliando o horário. Em contextos de extrema vulnerabilidade, é imprescindível que o tempo adicional venha associado a programas de saúde, alimentação, acompanhamento psicológico e, sobretudo, formação docente continuada. Caso contrário, corre-se o risco de empilhar medidas com efeito marginal.

Por fim, é preciso observar o que é mais adequado para cada faixa etária e etapa escolar. Na primeira infância e nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, por exemplo, há uma necessidade de tempo para brincar e vivenciar interações ricas – porque isso estimula habilidades como linguagem, autocontrole e aprendizagem complexa. Artigos como o paper Learning through Play, da LEGO Foundationsintetizam evidências de que atividades lúdicas favorecem autorregulação, linguagem e habilidades sociais. Isto posto, se uma rede amplia o tempo mas o transforma em um checklist acadêmico mecanicista, retirando liberdade para brincar e para atividades investigativas, pode estar minando o desenvolvimento integral das crianças mais novas. E o mesmo cuidado precisa ser aplicado a outras etapas da jornada escolar.

A experiência mostra que iniciativas de contraturno produzem resultados mais consistentes quando são construídas a partir da escuta ativa de professores e famílias. Nesses casos, o tempo adicional na escola deixa de ser apenas uma extensão da carga horária e passa a cumprir uma função pedagógica clara, com impacto real no desenvolvimento dos estudantes. Na ausência desse planejamento compartilhado, há o risco de que o contraturno se limite a ocupar tempo, acrescentando horas pouco qualificadas a uma rotina escolar já intensa.

*Damila Bonato é gerente de Marketing e Produto da Aprende Brasil Educação.