CAFÉ NO GAZETA MT
Cleiton Malheiro: o semeador de abraço!
Personagem de mais um episódio da série especial é testemunha do poder transformador da mistura Educação e Gentileza
18 de Maio de 2018, 10h32
Desde cedo -muito cedo- um educador vocacionado. Costumava brincar de dar aula na varanda de casa até que um dia cresceu e entendeu o amor por lecionar e pela arte da escrita. Queria ser jornalista. Não deu. Acabou cursando letras e descobriu, tempos, depois que não havia escolha melhor no mundo. Se tornou professor, morou em São Paulo e voltou para Rondonópolis com uma missão: semear abraços.
Cleiton Malheiro é formado pela Universidade Federal de Mato Grosso em 2007, estudou em alguns dos mais tradicionais colégios de Rondonópolis e imaginava um dia retribuir a cada um a contribuição dedicada. Idealista freiriano, humanizado, encontrou na cultura vivenciada na capital paulista uma maneira de, já em 2016, promover empatia e consciência cidadã dentro de um tradicional ambiente escolar. Seu carro-chefe foi a gentileza.
Daí surgiu o projeto "Gentileza em Ação", aplicado na disciplina Projeto de Vida ofertada aos alunos em duas escolas de período integral. "O eixo norteador era justamente a formação cidadã, sob os quatro pilares da Educação. Cheguei no espaço escolar e percebi uma necessidade de plantar harmonia no convívio social, proporcionar para a juventude cultura e ampliação dos horizontes", lembra. "O projeto de vida é fazer que com o aluno sonhe, tenha projetos de vida".
De começo, um choque. Equipado com nada mais que uma caixa de som e uma placa com os dizeres "abraço grátis", Malheiro se pôs a plantar na porta da escola, recebendo os estudantes no horário de entrada. Era o início da semeadura. "Muitos alunos, assim como em todos os lugares, se esquivavam, não queriam ou não entendiam o que significa um abraço, principalmente os meninos. Ainda hoje, eles tem entraves maiores em abraçar, até o jeito é diferente, há certa cultura machista, há um preconceito consentido que impede a afetividade", recorda.
Tempos depois, continua ele, pelo cansaço, a luta começou a ser vencida. "Aí o projeto foi aumentando. A partir destes primeiros adeptos a coisa fluiu. A escola em tempo integral tem a premissa da criação de projetos e o processo todo depende do interesse dos alunos. Quando todo mundo passou a entender a importância desta troca, desta educação humana, deste entendimento do aluno como um indivíduo pleno, o projeto cresceu e os estudantes começaram a difundir a ideia". O ponto alto, conta, ainda, foi o abraço grátis promovido na Praça Brasil às pessoas que passavam. "O dia de muitas pessoas foi transformado ali".

Roda da Gema
A disciplina Projeto de Vida caiu no gosto, modificou a rotina, atraiu a devida atenção. Era, pois, hora de abraçar (ainda ele, o abraço) algo maior. Nasceu então outro projeto, a "Roda da Gema". Gema = Gentileza em Ação. Os alunos passaram a formar rodas de conversa, debater assuntos com profundidade, escolheram o Setembro Amarelo.
A campanha nacional aborda a prevenção ao suicídio. Naquela turma de 2016 do professor, a depressão que acomete jovens e adultos precisava ser discutida. E foi. "É alarmante a quantidade de alunos que temos no ensino médio que sofrem de alguns transtorno, depressão, rejeição. Muitos se mutilam, se cortam, não sabem lidar com esta fase. Depois de toda aula expositiva, cunho pedagógico, muitos alunos se abriram e começa a contar suas histórias na roda de bate papo", diz. "Lembro de uma aluna em especial, que contou uma história pessoal muito forte, comoveu a todos. A partir dela, toda a turma começou a compartilhar suas angústias".
Gentileza em Ação, Roda da Gema, teatro, empreendedorismo... De lá para os dias hoje, novos projetos começaram a surgir das ideias do educador. Mais que isso, nasceram de uma parceria incomum - "infelizmente", diz- junto aos alunos. Cada uma das sementes plantadas segue firme. Malheiro se prepara para retomar os estudos e encarar o desafio de lecionar em horário regular. Sentimento de dever cumprido. "Hoje alunos entram em contato comigo, me dão feedback. Os que conseguiram emprego depois do curso de empreendedorismo, e outros que superaram qualquer dificuldade. Esses frutos vindouros que acabam chegando até mim me motivam e mostram que a coisa toda vale a pena", finaliza agradecido.
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Bom semeador se orgulha ao ver vingar o fruto.