Para não dizer que não falei das flores

por Por Bráulio Maglhães

18 de Junho de 2013, 10h33

Para não dizer que não falei das flores
Para não dizer que não falei das flores

Bráulio Maglhães é Social Media Rondonopolitano e leitor do GazetaMTVamos direto ao assunto: Primaveras. Tenho lido muito por aí, de colunistas ostentosos, analistas bem enquadrados, e seus seguidores com palavras de ordem do tipo "Não pise na grama", que o vandalismo pandêmico que assola São Paulo nos últimos dias quebra cercas e destrói jardins. 

Eles adubam a idéia de que as causas dessa "praga" - que já se espalhou pra outros quintais e continua crescendo em pleno asfalto - são muito pequenas diante do vasto campo de problemas e causas mais nobres a se cultivar. Defendem que essas ervas daninhas são muito bem plantadas por homens de foice banhada a ouro e executadas por burros com suas maçãs postadas. 

Mal sabem - ou sabem muito bem - o quanto superestimam os homens de foice, e subestimam os burros das maçãs. Imaginam tanto o mundo como um campo florido, onde ou se é flor a se admirar ou se é espinho a se evitar, que esquecem que, em várias "primaveras" pelo mundo a fora, os aradores do campo - muitas vezes de guerra - não tinham, e se quer simpatizavam com, foices, martelos ou enxadas. 

Quem tem coragem, por exemplo, de levantar e dizer que, na Grécia, os beneficiados no desabrochar das flores não eram homens com as mesmas placas de "Não pise na grama" que os críticos nacionais - de nossas espécies nacionais - tanto se orgulham?

Ou ainda quem dirá que no Reino Unido, há mais ou menos quatro estações, todo o levante - que quebrou cercas e destruiu jardins - não aconteceu quase que inteiramente graças a burros não organizados - que naquela ocasião nem portavam consigo tantas maçãs, mas sim mais amoras (Na Europa tudo é mais chique)? 

Alegam - ou se coçam (como se tivessem sentados em urtigas) para alegar - que o problema das flores brasileiras, é que o Brasil se encontra do lado esquerdo do mapa, e por isso até mesmo os girassóis daqui não são tão originais quanto os do leste (que afortunados como são, recebem o sol de toda manhã sempre primeiro que os nossos latifúndios). 

Quando querem comparar, as flores nacionais sempre "são menos perfumadas, menos belas, menos nobres, e com uma tendência incômoda a germinar para o lado esquerdo". Quando confrontados com o fato de que flores também germinam para o lado direito, ou ainda se mantendo na sua região central, preferem se agarrar ao argumento de que não dá para comparar se tratando de espécies de climas tão diferentes. 

A verdade é que se agarram a especificidade de cada caso para poderem ignorar a dinâmica comum: Uma primavera é formada por ervas daninhas que quebram cercas e destroem jardins, seja ela de esquerda, direita, pra baixo ou pra cima. Uma primavera não é o jardim minimamente podado que se mantêm em uma estufa, ou o botão de flor solitário dentro de um vaso.

Uma primavera acontece quando mesmo as minorias ganham, pelo menos, o crédito da maioria; no mínimo aquele mesmo consenso inseguro de quem, outrora, em assunto que não domina, aceita, mudo, o especialista dando desculpa para os bilhões dos estádios, ou os mirreis da merenda do seu filho na escola. Do trabalhador comum e sem instrução; aquele que acha que mulheres com roupa curta é pouca vergonha - mesmo babando toda vez que assiste o carnaval - que considera que homens se beijando é falta de surra; que fumar maconha é bandidagem e que o aborto é pecado. Que não entende nada quando ouve sobre genética, mas que sabe, de cabeça, quantos dias do mês que poderá tomar café na padaria da esquina antes de ir pro trabalho. 

Pequenas coisas, como o aumento de uma tarifa de ônibus, não precisam de colunistas ostentosos e analistas bem enquadrados para serem explicadas, qualquer burro com sua maçã ou marmita compreende os efeitos. E não há engenheiro de estádio, jurista constitucionalista, nem laudo de especialista algum no mundo que lhe convence que aquilo que estão lhe dizendo é para o seu bem. 

Toda primavera brota a partir de pequenas coisas sim; gotas d'água, provenientes do derretimendo do gelo social, talvez. Toda primavera brota por meio de pequenas coisas sim: sementes de maçãs jogadas ao vento são difíceis de controlar e dão flores muito apreciadas no mundo inteiro.

Toda primavera foca sua polinização contra o Poder Executivo sim (seja estadual, nacional, municipal, agentes do poder executivo e/ou forças policiais), já que a idéia de que o Poder Legislativo (onde ele tem - e até graças aos locais onde não - grande influência) é o alicerce de um Estado de Direito - mesmo quando esse Estado de Direito é um Estado de Trás das Cortinas, na verdade - foi muito bem vendida, e que o Judiciário é uma questão de ignorar enquanto puder e cumprir quando tiver. 

A primavera não brota na grama bem aparada de um estádio de copa do mundo, com todos seus padrões FIFA, caxirolas e naming rights. A primavera brota no asfalto rachado, embaixo de um ônibus lotado, onde o aperto espreme o corpo, o tempo e o bolso do cidadão, que não sabe se vai ver um jogo de copa do mundo no estádio, mas se nega a não poder passar pelo menos na porta, na linha que pega, pra poder pagar a conta no fim mês. 

Mas que fique avisado aos críticos e aos escondidos: a primavera pode não brotar nos bilhões, nos índices, nas siglas de entidades e impostos embutidos, ou mesmo nas arenas de copa do mundo; mas a grama já foi pisada. 

A primavera pode não desabrochar em um buquê de dinheiro na mão de quem vai aos jogos da copa sem pagar e anda de jato com o dinheiro de quem anda de ônibus; mas as flores do campo que fazem uma primavera são ervas daninhas, que mesmo sem investimento, ou até mesmo se tentando combater, se espalha. E lembre-se: a primavera pode começar em um botão de flor de vinte centavos.

*Bráulio Maglhães, 24 anos, é Social Media Rondonopolitano e leitor do GazetaMT. No Facebook é https://www.facebook.com/braulioops e no Twitter https://twitter.com/Braulioops