MARCOS SOVINSKI
Eu vejo poeira... muita poeira
18 de Agosto de 2020, 17h26
Eu vejo poeira... muita poeira.
Consigo ver a lama, vejo pedras, vejo mato.
Percebo lágrimas minhas e de tantos outros respingando pelo cano alto.
Sinto o calor da meia preta suada
e até o chulé fedorento da palmilha desgastada.
Tem graxa em milhares de camadas
Tantas e tantas vezes escovado e tantas vezes só uns tapas levou pra bater o pó.
Tem suor, muito suor
O tremor das pernas que sustentou
Nos confrontos entre a vida e a morte
Entre o céu e o inferno.
O peso da tralha nas costas.
Deve ter ódio do colete e da pistola que aumentaram o peso a suportar.
Vejo um solado torto pelo desvio de coluna
O bico tá precisando cola porque precisava secar ao sol rapidão.
Se procurar direito vou achar carrapatos ainda
Vejo a angústia pelas decisões erradas
Mas vejo brilho pelas acertadas.
Ele é de couro, mas foi o aço
Forjado pela coragem burra às vezes
Vejo sangue derramado por onde pisou.
Vejo a pólvora na língua, das honras fúnebres de tantos guerreiros que se foram.
Sinto a dor na planta dos pés por horas em pé
Muitas vezes sem sentido
Me lembro das portas que ele derrubou, conduzindo as algemas onde foi preciso usá-las.
Lembro da noite fria, da rua vazia, da sirene aberta.
Tantos momentos que se dobrou pra seu dono se ajoelhar e agradecer a Deus pela vitória.
Tantas vezes freou a viatura sem estar dirigindo, pra não bater em semáforos fechados que ele desrespeitou.
Vejo mato nos ilhós, das caçadas no cerrado e na floresta.
Vejo água dos rios escorrendo pelos cadarços.
Ouço o barulho dele encharcado e fazendo espuma pelo respiro. Vejo saudades de casa durante as jornadas mais longas.
Me lembro sempre dele jogado num canto, enquanto a pistola ganhava manutenção e a fama.
Percebo que antes dele outros se arrebentaram pelo caminho.
Sim ele tem história pra lembrar
E pra esquecer também
Pisou no tapete persa, nos tribunais e no piso azul onde só os altos coturnos pisam.
Mas foi na terra e lama que se amoldou
Aprendeu muito com mais velhos sem sistema Dry, palmilhas magnéticas, costura dupla ou solado antiabrasão.
Nunca esteve sozinho pois ao seu lado haviam outros pares iguais caminhando na mesma direção.
Por vezes não deixou rastro na areia pois Deus o carregava no colo.
Ele chorou comigo tantas vezes
Mas sorriu mais vezes ainda
Como o velho boiadeiro que guardou seu laço
Guardo meu amigo que foi o aço.
Ah meu amigo, quantas vezes rompeu marcha em acelerado quando a corneta da vida mandou dar meia volta. Virou pra esquerda quando o toque era pra direita.
Sem pisar em ninguém chegou ao topo da montanha. Mas bateu forte no chão pra afugentar os ratos.
Eu vejo dor, vejo amor, vejo paz e vejo guerra.
Eu vejo poeira... muita poeira!
Outros veem apenas um coturno velho pendurado.

Marcos Sovinski, coronel da reserva da Polícia Militar do Estado de Mato Grosso.