OPINIÃO
A Declaração de Herniuda Prado
19 de Março de 2024, 13h53
Vovó Herniuda Prado dos Santos estava à beira do lago, fazendo o que sempre faz em dias ensolarados e angustiantes. Estava presa em seus vagos sentimentos de esperanças. Ela não estava ali, com o corpo dolorido, as mãos inchadas, suando. Na verdade, longe de tudo a alma dela se encontrava. O canto do sabiá e o som da água, enquanto as mulheres lavavam os lençóis dos senhores, pareciam sussurrar um presságio de angústia, anunciando mais um dia de labuta.
Enquanto os lençóis sujos ela remexia no cesto, a injustiça pesava sobre seus ombros. Pensou que deus estivesse sendo desarrazoado, e que de nada adiantaria acordar às quatro da madrugada e rezar antes de levar algumas chicotadas. Pensou na voz do padre dizendo que o caminho era este e nada mais.
Algumas mulheres do outro lado choravam desesperadas, perguntado sobre o filho. A outra, próximo a ela, levantou-se e saiu correndo. Herniuda Prado dos Santos fechou os olhos e agradeceu pela vida de Ernesta Filhinha dos Santos. Um tiro ecoou pela floresta, junto às vozes espantosas de todas. Os senhores agitaram-se. Um homem, sem que houvesse um pingo de ressentimento ou de dor, abaixou sua roupa e pegou uma mulher para si. Ali mesmo, no Lago dos Sete Mortos, a virgindade das mulheres “recém-escravas” lhes era tomada à força e todas as mulheres choravam enquanto esfregavam roupas e mais roupas. Nada podiam fazer sem terem o mesmo sustento que lhe causava tanto medo, que lhes tirava o sono e a carne. Nada podia fazer Herniuda Prado dos Santos com seus quarenta e cinco anos, com seus olhos já cansados de olhar tão de perto a morte, com suas mãos trêmulas de medo, com seu rosto banhado de desespero.
Já quase findando o dia, as mulheres eram novamente acorrentadas em fileiras. Todas aguardavam em silêncio, enquanto os senhores as contavam. Um homem pigarreou algo que Herniuda Prado não conseguiu entender. Era outra língua, pensou ela. O outro, em cima de um cavalo, arrancou uma faca da cintura e cortou pouco a pouco o cabelo crespo de uma mulher alta e de olhos claros. E a moça chorou, assim como todas as outras, mas Herniuda Prado dos Santos não. Chorar, para ela, significava desistir de tudo.
Ao cabo da “cerimônia” de retorno às senzalas, todas já se encontravam aninhadas em seus devidos lugares e vigiadas por cães. Deitada sobre a terra úmida, Herniuda Prado sentiu a fome apoderar-se dela. Queria comer, mas não havia nada que pudesse fazer. Como um ato de desespero, agarrou com as mãos um punhado de terra e engoliu. Engoliu e chorou. Era a hora de dizer adeus para deus. O inferno era o único lugar que cabia sua alma doente. Herniuda Prado não era mais dos Santos. Agora era só Herniuda Prado.
David Lopes dos Santos Curso: Letras - Língua Portuguesa Universidade Federal de Rondonópolis - UFR