OPINIÃO

Diversificar o funding deixou de ser estratégia e virou necessidade

por Diego Hohagen

19 de Agosto de 2026, 06h00

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Divulgação

A leitura atenta dos sinais da política monetária, da gestão fiscal e das expectativas econômicas tornou-se uma espécie de bússola para empresas que precisam tomar decisões de investimento e estruturar operações de crédito no Brasil. As discussões acompanhadas durante a Expert XP 2026, especialmente nos painéis que reuniram autoridades como o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o ministro da Fazenda, Dario Durigan, reforçaram uma mensagem importante para o ambiente corporativo: em um cenário de juros ainda restritivos e incertezas que exigem cautela, previsibilidade e planejamento financeiro passam a ser ativos estratégicos.

Essa realidade traz uma consequência direta para empresários e gestores financeiros: depender exclusivamente das linhas bancárias tradicionais já não representa, necessariamente, a melhor estratégia para financiar crescimento, expansão ou reorganização de passivos.

A própria dimensão da Expert XP ajuda a ilustrar essa transformação do mercado. Em sua edição de 2026, o evento reuniu diferentes setores do ecossistema financeiro e colocou no centro das discussões temas como juros, inflação, investimentos, inovação, produtividade e perspectivas para a economia brasileira. A programação reforçou o papel cada vez mais relevante da inteligência financeira e da diversificação na tomada de decisões empresariais.

Para o mercado corporativo, essa mudança é especialmente relevante. Segmentos que movimentam grandes volumes de capital, como agronegócio, infraestrutura, energia, transição energética e middle market, precisam de estruturas financeiras que respeitem as particularidades de cada operação. Não há mais espaço para soluções padronizadas quando o objetivo é conciliar fluxo de caixa, prazo, custo de capital e capacidade de crescimento.

É nesse contexto que o mercado de capitais ganha protagonismo.

O amadurecimento das alternativas de funding, aliado à evolução das ferramentas de análise de risco, ampliou o acesso das empresas a recursos e permitiu a construção de operações mais aderentes às necessidades de cada negócio. Instrumentos como emissão de dívida privada, antecipação de recebíveis, estruturas de crédito e operações de reestruturação de passivos podem compor estratégias financeiras mais eficientes e diversificadas.

Na prática, isso significa que uma empresa não precisa mais concentrar sua relação de crédito em poucos agentes financeiros. É possível construir uma arquitetura de capital que combine diferentes fontes de recursos, reduza a dependência de uma única instituição e ofereça maior flexibilidade para enfrentar os ciclos de mercado.

Essa transformação é particularmente importante para empresas de médio porte e para negócios inseridos em setores com forte sazonalidade.

No setor imobiliário, essa lógica tornou-se ainda mais relevante diante da maior seletividade dos bancos tradicionais na concessão de crédito para incorporadoras e construtoras. Com a redução da oferta de linhas convencionais de financiamento à produção, as operações financeiras estruturadas passaram a desempenhar um papel estratégico, especialmente para empreendimentos em fase de conclusão.

Linhas voltadas à conclusão de obras, estruturadas por meio do mercado de capitais, permitem que empresas finalizem seus projetos, preservem a geração de caixa, acelerem a entrega dos empreendimentos e reduzam riscos operacionais e comerciais decorrentes de atrasos. Em um cenário de juros elevados e crédito mais restritivo, essas soluções deixaram de ser apenas uma alternativa e passaram a representar, em muitos casos, um fator determinante para a continuidade e o sucesso dos projetos.

No agronegócio, por exemplo, o calendário de produção e comercialização exige que o crédito acompanhe o ciclo operacional da atividade. Em infraestrutura e energia, por outro lado, os projetos demandam estruturas de prazo mais longo e planejamento financeiro compatível com o período de maturação dos investimentos.

A experiência técnica no acompanhamento de operações complexas na RSA Capital, somada às discussões e tendências observadas na Expert XP 2026, reforça uma constatação: diversificar as fontes de funding deixou de ser uma alternativa para momentos de crise e passou a fazer parte da estratégia de crescimento das empresas.

Para diretores financeiros, empresários e gestores, o desafio não está apenas em encontrar crédito. Está em estruturar o capital de maneira inteligente, antecipar necessidades, avaliar riscos e escolher a combinação mais adequada entre custo, prazo, garantias, liquidez e flexibilidade.

Nesse cenário, a governança também assume papel central. Empresas mais organizadas, transparentes e preparadas para apresentar informações financeiras consistentes tendem a estar mais aptas a acessar diferentes fontes de capital e negociar estruturas mais adequadas aos seus objetivos.

Antecipar a estruturação dessas alternativas não significa apenas proteger o caixa. Significa criar capacidade de reação, preservar oportunidades de investimento e transformar momentos de volatilidade em espaço para decisões estratégicas.

O crédito continuará sendo essencial para o crescimento empresarial. A diferença, daqui para frente, estará cada vez mais em como, quando e de onde esse capital será obtido.

Quem se antecipa a esse movimento não apenas financia o próximo ciclo de crescimento. Constrói as condições para atravessá-lo com mais segurança, eficiência e competitividade.

* Diego Hohagen é sócio e head de Relação com Investidores na RSA Capital