OPINIÃO

ALÉM DA CANETA: O NOVO PAPEL DAS HEALTHTECHS NO MERCADO DE EMAGRECIMENTO

por Thamires Cappello

02 de Novembro de 2026, 06h10

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Divulgação

A popularização das chamadas canetas emagrecedoras mudou o mercado de tratamento da obesidade. Os medicamentos à base de GLP-1 passaram a ocupar um espaço central nas discussões de saúde, trazendo uma nova perspectiva para milhões de pessoas. Em dezembro de 2025, a OMS publicou sua primeira diretriz global sobre o tema, reconhecendo o papel dessas terapias, mas reforçando que elas devem integrar uma estratégia ampla, que envolva alimentação saudável, atividade física e acompanhamento contínuo.

Essa mudança ultrapassa os consultórios e transforma a jornada do paciente. Se antes o tratamento se concentrava em consultas presenciais e pontuais, a expansão dessas terapias reforça a necessidade de um cuidado que se estenda para além dos atendimentos médicos. É nesse cenário que as healthtechs ganham protagonismo, combinando telemedicina, acompanhamento clínico, monitoramento de indicadores e orientação comportamental em uma experiência integrada. 

O desafio passa a ser acompanhar o paciente não apenas no momento da prescrição, mas também ao longo do tratamento, apoiando a adesão e identificando necessidades que surgem durante a jornada. A contribuição das soluções digitais para esse cuidado também começa a ser respaldada por evidências. Um estudo clínico publicado no International Journal of Obesity demonstrou que uma aplicação digital voltada ao controle de peso esteve associada a maior perda ponderal, além de ganhos em qualidade de vida e conhecimento sobre alimentação. O digital, portanto, além de um canal de consulta, atua também como uma camada ativa de cuidado.

Essa evolução também redefine os critérios para o desenvolvimento de soluções no setor. Mais do que oferecer acesso a consultas e tratamentos, as plataformas precisam estruturar jornadas que considerem as diferentes necessidades do paciente ao longo do tempo. Isso exige integrar profissionais, informações clínicas e recursos de acompanhamento, com foco na continuidade do cuidado e na capacidade de responder às mudanças que surgem durante o tratamento.

Contudo, a expansão do setor exige responsabilidade. O aumento da procura traz desafios complexos relacionados à segurança, adesão ao tratamento e conformidade regulatória. Em um mercado exposto à desinformação nas redes sociais e ao acesso facilitado a medicamentos, a tecnologia deve atuar como estrutura para oferecer orientação qualificada e rigor ético, e não como mera ferramenta de comercialização.

O mercado de saúde passa por uma virada estrutural: o paciente não busca apenas a perda de peso, mas uma jornada sustentável. Para as healthtechs, o diferencial competitivo não estará no algoritmo em si, mas na capacidade de transformar tecnologia em cuidado seguro, contínuo e responsável.

*Thamires Cappello, diretora jurídica da Voy, empresa de gestão de saúde que fornece acesso a jornadas de emagrecimento. Doutora em Ciências da Saúde e Saúde Pública pela USP. Mestre em Direito pela PUC/SP. Pesquisadora no Centro de Direito Sanitário da USP.