Quanto custa formar um atleta para o futebol profissional?
02 de Dezembro de 2014, 14h56
O esporte, principalmente o futebol, aparenta ser um caminho fácil a percorrer. Isso para aqueles que demonstram domínio e dom natos. No entanto, ultrapassar as barreiras não é fácil. Raros são os que alcançam a linha de chegada. Uns até teimosamente conseguem chegam pertinho, mas mudam de ideia logo nas primeiras dificuldades.
Pense nisso: de um grupo de um milhão, no máximo de três a cinco conseguem alcançar o topo por geração, com salario acima de cinquenta mil/mês. Essa é a realidade. Facilidade, só no imaginário, na fantasia e no romantismo dos irresponsáveis, inconsequentes e "sonhadores", sobretudo os que se dizem "professores", empresários, dirigentes e cartolas mal intencionados.
Não existe mágica para formar um craque no futebol. Talento é indispensável, mas saber dosar, equilibrar e absorver as dificuldades são princípios para começar a subida nesta escalada. Verdade é que não existem catedráticos nesta modalidade. Todos opinam, mas não tem o conhecimento necessário para entender as alegrias e as agruras que o futebol proporciona.
Nesse mercado tem de tudo, há aqueles que jogam contra, mesmo fazendo parte do grupo, seja no elenco, na comissão técnica, diretoria, e por aí vai. Também entender o torcedor que paga ingresso tem o "direito" de falar o que quiser. Quer dizer, quando tudo vai bem, tudo bem. Do contrário, o bicho pega. E a corda arrebenta no lombo de quem?
Muito se critica a qualidade técnica dentro de campo. Porém, atualmente o jogador não pode exercer sua criatividade em se lançar numa jogada mais aguda e diferente no ataque sem o consentimento do professor, sob pena de ser sacado da titularidade. Se faz gol, tudo certo, mas se por acaso toma um contra-ataque, e este favoreça o adversário pronto, pode esperar a bronca de todas as partes.
Outro perigo terrível no mundo futebolístico diz respeito às exigências dos clubes para com os garotos. Aliás, alguns clubes oferecem boas condições em termos metodológicos, mas a maioria peca no quesito assistencial no que se refere aos estudos e ao apoio familiar do atleta, só para citar alguns exemplos. Os dirigentes de base não podem deixar de lado a responsabilidade na formação cidadã do garoto, precisam estar mais atentos ao seu dia a dia, e acima de tudo, às atividades extracampo, além de um relacionamento estreito com os familiares, independente se estes têm ou não procuradores, pais ou são criados pelos avos.
Também cabe a família saber que esse mercado é um campo minado, com muitas mentiras, armações e conveniências, e, portanto, não podem deixar os garotos à mercê da sorte e à exposição de críticas. É importante o diálogo constante, o acompanhamento do cotidiano, saber onde vai e com quem se relaciona, e apesar das dificuldades, participar ativamente do processo de formação do futuro atleta. Não é fácil.
É muito dispendioso, perigoso e principalmente de muita responsabilidade para quem os está formando. Mas vale a pena. Ouro detalhe importante: seja qual for o grau de dificuldade nunca deixa de colocar as mãos nos ombros do seu filho, uma ligação, uma dura, um elogio, mostrando que se preocupa com ele, faz um bem medonho.
Ganhar títulos nas categorias de base não deixa de ser bom, mas também pode mascarar um percurso natural mais adiante, pois a meta central é chegar e fazer parte do grupo principal, onde a visibilidade e a possibilidade de ganho são evidentes.
Sucesso se constrói agindo em equipe após fazer uma boa campanha. Importante ter consciência e senso critico para administrar vaidades. Evitar jogo de interesses. Ficar na defensiva ou agredir no momento certo. Saber que nesse mercado bandido e mocinho ocupam mesmo espaço.
Como afirmamos, apesar do número de jogadores no futebol brasileiro, é ínfimo o número daqueles que conseguem sucesso nos elencos principais. Jogador é um ser humano que merece respeito, como em qualquer outra profissão. Empresário pode empregar, mas é difícil garantir titularidade para alguém e a política tem que ser transparente e responsável.
Atleta não se faz na teoria, se forma dando condições dignas, e acima de tudo, orientando sobre pequenos detalhes importantes na formação e na maioria das vezes ignorados, tais como, a necessidade de se alimentar bem, dormir bem, ler muito, obediência tática, física e técnica sem preguiça, relacionamento interpessoal, amor pela profissão, o saber recuar e ao mesmo tempo atacar nos momentos certos. É fácil colocar no mercado atletas de alto rendimento?
Fácil não é, mas é possível, desde que tenha presença, humildade, foco, nunca desistir e principalmente, submissão a Deus.
Silva Junior, é jornalista e radialista.