OPINIÃO
Quando o amor tem quatro patas!
20 de Março de 2026, 06h10
Dias atrás, ao passar distraidamente pelas redes sociais, fui interrompida por um texto que pedia pausa. Uma amiga querida, Stélida, havia escrito sobre a perda do seu companheiro de quatro patas, Theodoro. Não era apenas um relato de despedida, mas uma declaração de amor capaz de tocar até quem nunca viveu a experiência de dividir a vida com um animal.
Para quem convive com esse tipo de vínculo, a nomenclatura pouco importa. O que existe é a certeza de que eles se tornam membros vitais da família. Compartilham rotinas, reconhecem o tom da nossa voz, entendem nossos silêncios e oferecem uma presença inteira — algo cada vez mais raro em um mundo apressado e distraído.
Theodoro esteve ao lado de Stélida por 11 anos. Foram anos de convivência simples e profunda, feita de hábitos cotidianos que só revelam seu verdadeiro valor diante da ausência. O barulho das patinhas no corredor, o suspiro profundo ao se acomodar aos pés do sofá, o olhar que buscava confirmação: tudo permanece fisicamente igual na casa, mas emocionalmente transformado.
Há perdas que não fazem barulho para o mundo lá fora. Não alteram a paisagem da rua, mas reorganizam todo o nosso interior. A ausência de um companheiro fiel se manifesta nos pequenos vazios — no horário do passeio que já não se cumpre, no canto da sala agora desabitado, no silêncio que, de repente, passa a ter peso.
A despedida nunca vem acompanhada de preparo. Nenhuma experiência anterior ensina como seguir quando o afeto que nos ancorava diariamente deixa de estar presente de forma concreta. O que permanece, no entanto, é a memória: não como dor pura, mas como um lugar seguro onde o amor continua existindo, protegido do tempo.
Este texto nasceu da necessidade de registrar esse vínculo. Não para suavizar a perda, mas para reconhecê-la como legítima e grandiosa. Porque histórias que foram verdadeiras merecem ser contadas. E porque a relação construída ao longo de mais de uma década entre Theodoro e Stélida foi, acima de tudo, uma história que deu certo.
Theodoro partiu, mas ficou. Ficou na lembrança, na palavra escrita e no afeto que atravessa os anos. Alguns amores não terminam com a despedida. Apenas mudam de lugar.
*Soraya Medeiros é jornalista.