ROSANA LEITE
Privilégio branco e mulheres
20 de Julho de 2020, 11h01
Que o gênero feminino é discriminado, tratado como seres humanos de segunda categoria, que não possui as mesmas oportunidades que o masculino, que sofre violências e resquícios machista, já é algo conhecido e frequente. Todavia, e a mulher preta? Em que a minha “branquitude” pode contribuir nessa luta? É meu lugar de fala?
Entender sobre a verdadeira discriminação e as adversidades sofridas com o racismo é lugar de fala de todos e todas. É dever moral o reconhecimento das situações humilhantes, cruéis e agressivas já sofridas, principalmente pelas mulheres, as irmãs pretas.
Não, não há racismo reverso! Só conhecem os problemas aquelas que foram submetidas a ele. Apenas quem foi parada na porta de uma loja e teve que comprovar, através de nota, que, de fato, comprou, sentiu. Somente quem correu sem que olhares se voltassem a ela, já pensando o que teria feito de errado, entende. Quem já foi seguido ou seguida no mercado? Ao assistir a filmes e demais programas televisivos, várias pessoas iguais a você estão ocupando aquele lugar? Não é possível pensar em racismo reverso se os pretos e pretas não possuem e não ocupam espaços de poder na sociedade como a branquitude. Só é provável praticar racismo quem tem poder.
O lugar dos brancos e brancas é confortável! Os olhares são diversos, ou seja, não se vê com os mesmos olhos que são enxergados. Nenhuma raça ou etnia deve se sentir “culpada” pelos privilégios que possui. A culpa começa quando não se compreende que existe racismo e que as oportunidades não são as mesmas. Se esforçar reagindo para evitar ou minorar as discriminações é papel e lugar de fala de todos e todas.
Ocupar lugares de privilégio é provável e real. Mas, como diz Bielo Pereira, no canal do YouTube “Quebrando Tabu”, vídeo Privilégio Branco, o que se fazer com essa prerrogativa? Conversar com as pessoas brancas é a primeira ação. Porque em nossas rodas não tem pessoas pretas? Porque dentre as celebridades, quase não possuem pretos e pretas? Porque em testes, primordialmente para ocupar lugares no mercado de trabalho, os pretos e pretas são preteridos?
Lembro-me como hoje, era criança. Uma certa empresária perguntou ao meu pai e à minha mãe se indicariam uma vendedora para a sua loja de venda de roupas de mulheres. A família indicou uma jovem moça preta da Comunidade São Gonçalo de Cuiabá, e que havia feito um curso sobre vendas à época, pelos idos de 1990. Com muita tristeza, ficamos sabendo que a jovem não poderia ser contratada pela empresária da moda, pois, em seu comércio a exigência era que as vendedoras tivessem “boa aparência”.
Outra dor lembrada é de uma jovem com cabelo black power, em Cuiabá, onde a maioria da população é negra. O gerente da empresa multinacional a pediu que fosse trabalhar apenas de cabelos presos, pois, poderia ficar ruim se apresentar com aquelas madeixas para os consumidores e consumidoras.
Não precisa ir muito longe, o país é composto em sua maioria de negros e negras. Quem são as pessoas que ocupam os bancos das faculdades em sua maioria? Brancos e brancas ou negros e negras? E quando os cursos são realizados em turnos integrais, quais os estudantes e as estudantes cursam?
Através da Lei 12.987/2014 ficou reconhecido no Brasil o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. É uma data importante para todos e todas. Reconhecer as situações de desigualdades é apenas o primeiro passo.
“Numa sociedade racista, não basta não ser racista. É necessário ser antirracista!” (Angela Davis). Entender que é parte do problema é essencial... Quais barreiras a branquitude pode ajudar a retirar para que pretas e pretos entrem?
Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual.