OPINIÃO

Memória

por Fabiano Guimarães de Andrade

21 de Dezembro de 2024, 06h00

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Divulgação

— Um dia, seremos, apenas, memória.

A frase, curta e direta, foi suficiente para causar nos ouvintes um estado de

epifania silenciosa, profunda e quase distópica.

Todos sabem que vão morrer um dia. A morte, em si, não é novidade para

ninguém. Mas a morte do eu é outra coisa. Assusta como um bicho-papão à

espreita. Aceitamos a morte do outro como um fato, mas refletir sobre o fim de si

mesmo é um desafio quase intocável.

Depois de alguns segundos de silêncio pesado, a sala começou a voltar ao

seu ritmo habitual. Vozes abafadas retomaram a conversa com a leveza calculada

de quem desvia do abismo: o preço do feijão está um absurdo; como está quente

hoje. A verdade é que a Verdade incomoda. Ela sacode os alicerces, desestabiliza e

exige um preço alto de quem ousa encará-la: o abandono do conforto. Falar de vida

— ou da ausência dela — é como tatear caixas vazias no escuro, esperando

encontrar algo que talvez nem exista.

Era irônico que o palestrante houvesse sido convidado para uma fala sobre

valorização da vida. Esperavam palavras sobre otimismo, superação e propósito.

Mas ele, de algum modo, decidiu subverter o roteiro. Falou sobre a memória que,

com sorte, será o que nos resta após a partida. O desconforto no público era visível,

embora ninguém ousasse interrompê-lo.

Então, ele sorriu. Um sorriso que parecia deslocado, até cruel.

— Deixem-me compartilhar algo com vocês. Há uma década, eu fui

palestrante em outra cidade, em uma ocasião semelhante. Fiz uma pergunta

simples ao público: o que você deixará para o mundo quando partir? Uma senhora,

sentada bem à frente, respondeu: memórias.

Ele fez uma pausa, deixando a tensão pairar no ar.

— Dois dias depois, ela tirou a própria vida.

Um arrepio percorreu a sala, mas ele continuou, implacável.

— Quando a encontraram, havia uma carta ao lado do corpo.

Se alguém encontrar estas palavras, espero que

compreenda. Não é um pedido de desculpas, nem uma tentativa de

justificar o que estou prestes a fazer. Talvez seja apenas a última

coisa que posso fazer para deixar um vestígio de mim. Porque, no

fim, é isso que me atormenta: não ter deixado nada. Não ter vivido

como deveria. Me perdi no caminho, afoguei-me nas minhas próprias

dúvidas, nos meus próprios medos. E agora, o tempo já se foi.

Sinto um arrependimento profundo por todas as coisas que

não fiz. Por todos os sonhos que abandonei, por todos os momentos

que deixei escapar, acreditando que a vida ainda tinha tempo para

me oferecer. Pensei que tudo seria possível amanhã, que o futuro

resolveria o que o presente não foi capaz de abraçar. Mas o amanhã

nunca chegou. Hoje, é o fim de tudo. E, ao olhar para trás, o que

vejo não são os momentos vividos, mas apenas o que poderia ter

sido — e não foi.

A morte, para mim, não é uma fuga, nem um glorioso fim.

Ela é apenas o ponto final de uma história que encerrou a si mesma.

Adeus!

— E sabe o mais perturbador? Eu já não lembro o nome dela.

O silêncio se tornou insuportável. Alguns desviaram o olhar. Outros pareciam

paralisados. Ele ajeitou o microfone no pedestal e finalizou com voz grave:

— Vocês estão preocupados com a memória que vão deixar?