OPINIÃO
Memória
21 de Dezembro de 2024, 06h00
— Um dia, seremos, apenas, memória.
A frase, curta e direta, foi suficiente para causar nos ouvintes um estado de
epifania silenciosa, profunda e quase distópica.
Todos sabem que vão morrer um dia. A morte, em si, não é novidade para
ninguém. Mas a morte do eu é outra coisa. Assusta como um bicho-papão à
espreita. Aceitamos a morte do outro como um fato, mas refletir sobre o fim de si
mesmo é um desafio quase intocável.
Depois de alguns segundos de silêncio pesado, a sala começou a voltar ao
seu ritmo habitual. Vozes abafadas retomaram a conversa com a leveza calculada
de quem desvia do abismo: o preço do feijão está um absurdo; como está quente
hoje. A verdade é que a Verdade incomoda. Ela sacode os alicerces, desestabiliza e
exige um preço alto de quem ousa encará-la: o abandono do conforto. Falar de vida
— ou da ausência dela — é como tatear caixas vazias no escuro, esperando
encontrar algo que talvez nem exista.
Era irônico que o palestrante houvesse sido convidado para uma fala sobre
valorização da vida. Esperavam palavras sobre otimismo, superação e propósito.
Mas ele, de algum modo, decidiu subverter o roteiro. Falou sobre a memória que,
com sorte, será o que nos resta após a partida. O desconforto no público era visível,
embora ninguém ousasse interrompê-lo.
Então, ele sorriu. Um sorriso que parecia deslocado, até cruel.
— Deixem-me compartilhar algo com vocês. Há uma década, eu fui
palestrante em outra cidade, em uma ocasião semelhante. Fiz uma pergunta
simples ao público: o que você deixará para o mundo quando partir? Uma senhora,
sentada bem à frente, respondeu: memórias.
Ele fez uma pausa, deixando a tensão pairar no ar.
— Dois dias depois, ela tirou a própria vida.
Um arrepio percorreu a sala, mas ele continuou, implacável.
— Quando a encontraram, havia uma carta ao lado do corpo.
Se alguém encontrar estas palavras, espero que
compreenda. Não é um pedido de desculpas, nem uma tentativa de
justificar o que estou prestes a fazer. Talvez seja apenas a última
coisa que posso fazer para deixar um vestígio de mim. Porque, no
fim, é isso que me atormenta: não ter deixado nada. Não ter vivido
como deveria. Me perdi no caminho, afoguei-me nas minhas próprias
dúvidas, nos meus próprios medos. E agora, o tempo já se foi.
Sinto um arrependimento profundo por todas as coisas que
não fiz. Por todos os sonhos que abandonei, por todos os momentos
que deixei escapar, acreditando que a vida ainda tinha tempo para
me oferecer. Pensei que tudo seria possível amanhã, que o futuro
resolveria o que o presente não foi capaz de abraçar. Mas o amanhã
nunca chegou. Hoje, é o fim de tudo. E, ao olhar para trás, o que
vejo não são os momentos vividos, mas apenas o que poderia ter
sido — e não foi.
A morte, para mim, não é uma fuga, nem um glorioso fim.
Ela é apenas o ponto final de uma história que encerrou a si mesma.
Adeus!
— E sabe o mais perturbador? Eu já não lembro o nome dela.
O silêncio se tornou insuportável. Alguns desviaram o olhar. Outros pareciam
paralisados. Ele ajeitou o microfone no pedestal e finalizou com voz grave:
— Vocês estão preocupados com a memória que vão deixar?