OPINIÃO

Os 142 Mato Grossos

por Cícero Ramos

21 de Julho de 2026, 06h00

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Divulgação

Existe o Mato Grosso da Amazônia, do Cerrado e do Pantanal; das grandes lavouras, da pecuária e das florestas; das cidades em rápida expansão e dos pequenos municípios. Há municípios onde a principal preocupação é manter as estradas rurais em condições de tráfego. Em outros, o desafio é ampliar o acesso à saúde especializada, fortalecer a segurança pública, investir em infraestrutura urbana ou avançar na regularização fundiária. Cada região tem prioridades, desafios e oportunidades próprios.

É dessa pluralidade que nasce um dos maiores desafios da representação política. Nas próximas eleições, os mato-grossenses voltarão às urnas para escolher seus representantes na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados. Antes das promessas de campanha, porém, vale uma reflexão: o que significa representar um estado tão diverso quanto Mato Grosso?

A resposta está na própria natureza do mandato parlamentar. Deputados estaduais e federais elaboram leis, fiscalizam o Poder Executivo, participam da definição do orçamento público e tomam decisões que repercutem diretamente na vida da população. Em um território marcado por profundas diferenças regionais, representar exige mais do que conhecimento técnico ou habilidade política. Exige compreender que uma mesma decisão pode produzir efeitos distintos conforme a realidade onde será aplicada.

Mato Grosso reúne 142 municípios distribuídos por um dos maiores territórios do país. Entre o norte e o sul, o leste e o oeste, mudam a economia, as vocações produtivas, a infraestrutura e as prioridades da população. É por isso que se pode dizer, sem exagero, que existem 142 Mato Grossos. Essa diversidade não representa um obstáculo ao desenvolvimento. Ao contrário, demonstra que soluções uniformes dificilmente respondem à complexidade de um estado como Mato Grosso. Políticas públicas eficazes começam pelo reconhecimento das diferenças, e não pela tentativa de ignorá-las.

Conhecer Mato Grosso vai além de percorrer quilômetros de estradas. É compreender como cada região produz riqueza, organiza sua vida social e enfrenta seus desafios. Nas visitas aos municípios, os números ganham contexto, e os problemas deixam de ser abstrações para se tornarem parte da realidade cotidiana.

Nenhum parlamentar conhecerá profundamente todas as realidades de um estado dessa dimensão. Ainda assim, tem o dever de manter presença constante nas diferentes regiões. Nenhum mapa substitui o chão que se pisa. A experiência direta oferece uma compreensão que nenhum gabinete ou relatório consegue proporcionar. Representar um estado dessa dimensão exige capacidade de síntese. O desafio não está apenas em conhecer diferentes realidades, mas em transformá-las em prioridades legislativas e decisões públicas capazes de fortalecer o conjunto do Estado. É nesse equilíbrio entre os interesses locais e a visão estratégica que se mede a qualidade de um representante.

É dessa proximidade que nasce uma representação mais qualificada. Quanto maior o conhecimento sobre o território, maiores as condições de produzir leis mais aderentes à realidade, exercer uma fiscalização mais eficiente e contribuir para uma melhor aplicação dos recursos públicos.

Ao eleitor cabe observar menos o discurso e mais a trajetória. A presença nas diferentes regiões, o conhecimento demonstrado sobre Mato Grosso e a coerência entre o que se defende e o que se realiza revelam mais sobre um mandato do que qualquer promessa de campanha.

A qualidade da representação não se mede pela quantidade de discursos nem pelo volume de promessas. Mede-se pela capacidade de interpretar um estado complexo, estabelecer prioridades e construir decisões compatíveis com a diversidade do território.

O voto é uma procuração para representar a sociedade e participar das decisões públicas que influenciam o futuro de Mato Grosso. Antes de concedê-la, vale perguntar: quem pretende representar o Estado demonstra compreender sua diversidade? Porque nenhuma decisão pública será melhor do que o conhecimento que lhe deu origem.

Cícero Ramos, engenheiro florestal e consultor técnico.