ROSANA LEITE
Heroína da Inconfidência
22 de Abril de 2020, 11h55
A Inconfidência Mineira foi um movimento de alguns representantes da sociedade mineira que inconformados com a dominação portuguesa, começaram a se reunir para conspirar sobre a independência.
Doze homens, conhecidos como inconfidentes, dos quais Tiradentes foi o expoente, ficaram para a história. E as mulheres que atuaram naquela época? Poucas ficaram conhecidas. Uma foi deveras importante: Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira.
Ela, além de poetisa, mineradora e ativista da política brasileira, teve grande participação na Conjuração Mineira. Todavia, a figura feminina pouco se destacava, ou podia expor opiniões. Existem lacunas na história. Bárbara é sempre lembrada como esposa de um dos principais mentores do levante mineiro: Alvarenga Peixoto.
Pelo patriarcalismo arraigado no Brasil, o mínimo consegue se resgatar quanto aos feitos femininos. Mesmo tendo elas desempenhado funções que contribuíram para a sociedade, primordialmente, contam-se sobre o gênero masculino. Apesar de muitas mulheres terem participado da história do Brasil e, também, mundialmente, os homens são mais lembrados.
Bárbara Heliodora é um exemplo da dificuldade em se recobrar fatos, quando as protagonistas são elas. O nome dela não ficou marcado como participante da inconfidência mineira. Ao visitar, em Ouro Preto/MG, o lindo Museu da Inconfidência e se deparar com os doze túmulos dos heróis da inconfidência, não é possível ver a sua lápide. Ela não está por lá, injustamente e infelizmente.
Mesmo sendo poetisa, a produção literária de Heliodora é contestada. Relatam alguns que os poemas “Conselhos a meus filhos” e o soneto dedicado a Maria Ifigênia são de sua autoria. Contudo, para outros e outras, há controvérsias a respeito. Se, de fato, foram dela mencionados escritos, a história deve a reconhecer como a primeira poetisa do Brasil.
O escritor Aureliano Leite no livro “A Vida Heroica de Bárbara Heliodora”, a retrata como a “estrela do norte” que soube guiar a vida do marido. São palavras do escritor: “(...) quando ele em certo instante quis fraquejar, foi Bárbara que o fez reaprumar-se na aventura patriótica. Disso e do mais que ela sofreu com alta dignidade, fez com que a posteridade lhe desse o tratamento de Heroína da Inconfidência.”
A história mostra, em algumas oportunidades, que muitas reuniões dos inconfidentes aconteciam na casa da Bárbara e Alvarenga, fazendo crer, mais uma vez, que ela foi uma inconfidente. Ao ler o interrogatório dos envolvidos dos “Autos da Devassa da Inconfidência Mineira”, percebe-se que as esposas foram poupadas, com a finalidade de as resguardar. Se realmente as pouparam, visando as defender, o que é altruísta, agora é o momento de se fazer justiça. Não há dúvida de que elas também sofreram por suas corajosas ações.
Tiradentes, de fato, marcou o movimento. Ele assumiu toda a culpa quando foram confrontados, recebendo, logicamente, a maior penalidade. Porém, os demais, também ficaram marcados, e, historicamente contam-se os seus feitos.
Dia 21 de abril, feriado nacional, “Dia da Inconfidência”, o é pela execução dele, Tiradentes. Claro, foi ele o principal. Sem essa importante figura, o Brasil demoraria um pouco mais a alcançar a sonhada independência.
Entretanto, a história nacional feminina merece ser remida. O nome de outras mulheres também apareceu no período: Hipólita Jacinta Teixeira de Melo e Maria Dorotéia Joaquina de Seixas Brandão. Bárbara, do pouco que se narra, agiu com maior veemência em suas convicções. E se ela participou efetivamente da conjuração mineira, isso a faz a primeira mulher no Brasil a tomar parte de um movimento político.
Os livros de história estão em débito para com as mulheres...
Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual.