Resistência às mudanças alimenta radicalização em manifestações

por * Eduardo Ramos

22 de Julho de 2013, 09h39

Resistência às mudanças alimenta radicalização em manifestações
Resistência às mudanças alimenta radicalização em manifestações

Quem acompanha as manifestações públicas e a repercussão delas na mídia tradicional, nos sites e redes sociais deve ter notado que o tom ficou mais grave na última semana, após a 'batalha' nos bairros chiques na cidade do Rio de Janeiro e a queima de pedágios em Vitória (ES). A violência dos manifestantes foi acompanhada de críticas duras e acusações graves. Enquanto a mídia tradicional defendeu a criminalização dos 'baderneiros', choveram artigos e comentários de gente importante apontando o risco de retrocesso e o envolvimento de organizações internacionais interessadas em prejudicar o país.

Não concordo com a tentativa de tratar manifestantes como bandidos. O direito à liberdade de expressão é sagrado. Sem ele não há democracia. Não é razoável colocar isso em discussão por causa de minorias que (com ou sem razão) promovem excessos em atos públicos. Bandido é quem rouba, mata e corrompe. Quem reivindica melhorias legítimas em manifestos público deve ser tratado como cidadão. Mesmo quando danifica bens materiais públicos ou privados.

Por outro lado, faz sentido as alegações de quem suspeita da ação de 'interesses ocultos' por trás das manifestações. Sempre houve e haverá pessoas, empresas e governos dispostos a manipular a opinião pública em benefício próprio. Os desdobramentos negativos que uma crise social e institucional poderia trazer à economia e à estabilidade política no Brasil interessam muita gente no mundo. Mas o sucesso deles dependerá de como as nossas autoridades e lideranças públicas reagirão.

Sim, há razões para nos preocuparmos com a inconsequência demonstrada nas últimas manifestações e o risco de retrocesso. Mas o fato é que as autoridades constituídas - em especial os políticos - fortalecem os 'arruaceiros' (manipulados ou não) ao não reconhecerem a urgência reclamada pelos que desejam um Brasil melhor.

O exemplo vindo de cima é o melhor antídoto contra a radicalização nas bases. E uma prova disso foi dada pelo próprio Legislativo. Ao retomarem e agilizarem a discussão de questões importantes - como a PEC-37, royalties do petróleo ou o combate à corrupção - os senadores e deputados conseguiram reduzir em mais de 90% o número e o volume das manifestações.

O problema é que a maior parte dos avanços citados ainda patina no Congresso ou depende de sanções presidenciais. Infelizmente, até o momento, não houve nenhuma alteração concreta. A lentidão, a corrupção e a leniência continuam caracterizando a gestão pública (nas três esferas dos três poderes). Quem manda na nação não demonstra disposição de mudar as velhas práticas, muito menos o Brasil. Esse é o problema.

Os escândalos, a ineficiência e o agravamento dos problemas dão combustível para o discurso dos que (com ou sem razão) querem incendiar as instituições e o próprio modelo democrático que temos. Tentar combater isso com repressão física ou ideológica é bobagem. Só piora.

Os agentes públicos, os partidos, sindicatos e a mídia ainda precisam provar disposição de exercerem uma nova prática. Se não houver ao menos esta garantia, o povo será vítima fácil dos baderneiros que saem as ruas e/ou dos golpistas que espreitam nas sombras.

 

*Eduardo Ramos é jornalista em Rondonópolis.