Lançamento
Mato Grosso é desbravado em livro
A obra traz histórias e fotos que traz a construção da BR 163 e da origem de municípios que hoje são grandes forças econômicas
22 de Setembro de 2014, 13h59
Nada melhor para contar sobre a colonização do Estado de Mato Grosso, do que alguém que também contribuiu com a migração local. O paranaense Olívio Beltrão, de 76 anos, apresenta uma verdadeira aula de história narrada em 320 páginas no livro "Mato Grosso: A Colonização que Deu Certo". A obra será lançada nesta segunda-feira (22.09), ás 19h30, na Academia Mato-grossense de Letras (AML), conta o drama e a ousadia de pessoas e famílias que, entre contratempos e dificuldades, persistiram e apostaram na terra.
"Emoldurado pelas duas mais importantes bacias hidrográficas do continente sul americano, e por caudalosos cursos d'água do solo brasileiro, a exemplo dos rios Cuiabá, Paraguai, Araguaia, Guaporé, Xingu e Juruena", assim o autor discorre de forma poética o território do estado de Mato Grosso. Cuja segunda metade do século XIX possuía mais de 1,5 milhões de km², nos quais ainda se incluíam os rios Madeira e o Paraná.
Fala da gigante terra, que é o centro geodésico da América do Sul, o terceiro estado do país em dimensão territorial, com 901.420 km², mesmo tendo cedido áreas para a constituição de duas unidades federativas: Rondônia e Mato Grosso do Sul, a primeira na década de 1940 e, a segunda, na década de 1970. De seus portugueses e bandeirantes paulistas, elementos europeus que conceberam a terra povoada há milhares de anos por diversas nações indígenas, e da fartura do ouro.
A obra vem a ser um rico documento com histórias pitorescas como a de um topógrafo chamado Aureliano, que no desbravamento de Mato Grosso, com a construção da rodovia Cuiabá/Santarém (BR 163), foi atacado por índios, com flechadas, e precisou ser atendido por um helicóptero vindo de Florianópolis (SC), devido o difícil acesso socorrista.
Entre um capítulo e outro permeado por fotos, Beltão conta a saga da origem de municípios que hoje são grandes forças econômicas, por pessoas que saíram principalmente das regiões Sul e Sudeste do país.
Como dos sócios Ênio Pepino e João Pedro Moreira de Carvalho, que implementaram a Sociedade Imobiliária do Noroeste do Paraná (Sinop), nome que leva o mesmo do município mato-grossense.
O autor conta que o sonho de Ênio era plantar mandioca e produzir álcool da raiz, mas o tipo de solo acabou com as esperanças dele. Chegou, inclusive, a comprar maquinário na Alemanha. Lembra também da figura do paulista Ariosto da Riva e seu projeto de colonização que foi responsável pelo surgimento de Alta Floresta, entre outros municípios.
Não diferente, Beltrão foi considerado pioneiro na região de Alto Araguaia com atividades de agricultura mecanizada e terra corrigida. Seu primeiro contato com Mato Grosso deu-se no começo da década de 1970, em viagem de avião, para conhecer algumas áreas na região oeste do Estado.
No ano de 1975 chega a terrinha que hoje comporta 141 municípios, com um projeto de plantio de arroz de sequeiro, em área de dez mil hectares, no sul matogrossense.
Com a verve cultural, Beltrão é experiente orador e palestrante, tendo atuado em diversos temas, a exemplo de clima, qualidade da terra, financiamento e tantas outras áreas. Declamador nato, já produziu inúmeros poemas e poesias, sem, no entanto, nunca tê-los selecionados em livro, ainda. E agora deixa um pouco de sua descrição um tanto poética a respeito da conquista ou descoberta de Mato Grosso.
São relatos e histórias ricamente ilustradas, como a construção da BR 163, de pessoas que contaram com a sorte para tentar vida nova numa terra desconhecida, isolada e por isso inóspita.
Esta obra brinda toda uma vida dedicada a Mato Grosso, que aos 76 anos, Olívio considera ser a realização de um grande sonho, de contar a ocupação do território mato-grossense, sobretudo a região norte.
Biografia
O autor Olívio Beltrão, de notória família paranaense, nasceu na cidade de Rebouças, naquele Estado sulista, a 20 de junho de 1937.
Sua verve cultural lhe fez enveredar ao mundo da poesia. Declamador nato, já produziu inúmeros poemas e poesias, sem, no entanto, nunca tê-los selecionados em livro, ainda.
Beltrão é experiente orador e palestrante, tendo atuado em diversos temas, a exemplo de clima, qualidade da terra, financiamento e tantas outras áreas.
Ainda jovem cursou Administração e Silvicultura na IKPC, em Monte Alegre, no Paraná, tendo sido nessa ocasião o orador da turma na festa de formatura. Mais tarde se dedicou aos cursos de Comércio Exterior e Direito, sem, no entanto, concluí-los, em função de atividades empresariais.
Foi proprietário de indústrias madeireiras no Paraná, e ainda diretor de rede de hotéis nas cidades de Curitiba, Foz do Iguaçu e Guarapuava.
Seu primeiro contato com Mato Grosso deu-se no começo da década de 1970, em viagem de avião, para conhecer algumas áreas na região oeste do Estado. No ano de 1975 chega a Mato Grosso com um projeto de plantio de arroz de sequeiro, em área de dez mil hectares, no sul matogrossense. Por esse trabalho foi considerado pioneiro na região de Alto Araguaia com atividades de agricultura mecanizada e terra corrigida.
Em 1978, Beltrão concorreu ao cargo de Deputado Federal, tendo sido lançado em eleições pelos colonizadores particulares do Estado e, apesar de não ter sido eleito, em função de expressiva votação conseguida na região, foi convidado pelo governo estadual, sob Frederico Campos, a assumir o comando político da região, por quatro anos.
Suas amplas relações políticas, empresariais e com os colonizadores e colonos ensejou-lhe escrever este livro - Mato Grosso a colonização que deu certo.
Contemporaneamente Olívio é atuante executivo empresarial e se prepara para publicar novas obras nas áreas da história e poesia.
INTRODUÇÃO DO LIVRO
Emoldurado pelas duas mais importantes bacias hidrográficas do continente sul americano, e por caudalosos cursos d'água do solo brasileiro, a exemplo dos rios Cuiabá, Paraguai, Araguaia, Guaporé, Xingu e Juruena, o território do estado de Mato Grosso possuía, na segunda metade do século XIX, mais de 1,5 milhões de km², nos quais ainda se incluíam os rios Madeira e o Paraná.
Ainda gigante, nos dias de hoje, Mato Grosso que é o centro geodésico da América do Sul, através de sua capital, Cuiabá, é o terceiro estado do país em dimensão territorial, com 901.420 km², mesmo tendo cedido áreas para a constituição de duas unidades federativas: Rondônia e Mato Grosso do Sul, a primeira na década de 1940 e, a segunda, na década de 1970.
Mato Grosso sempre foi uma terra agarrativa e de muitas surpresas. Desde os primeiros tempos de Cuiabá, com seus portugueses e bandeirantes paulistas, foi um espaço a ser conquistado e povoado, em detrimento dessa terra ser povoada há milhares de anos por diversas nações indígenas.
A concepção de ocupação do solo matogrossense, com a vinda do elemento europeu, sempre acompanhou os ciclos econômicos. Num primeiro momento, no começo do século XVIII, a vinda de bandeiras objetivava a preção indígena para manutenção de mão-de-obra escrava nas minas diamantíferas das Gerais e em canaviais no litoral nordestino. Esta versão é contestada por alguns segmentos ligados às pesquisas históricas, visto que a distância entre Cuiabá e Sorocaba ainda são abissais nos dias hoje, em tempos de mídias sociais, vias áreas e rodovias asfaltadas, imaginem, caros leitores, há 300 anos, como seria? Logicamente a distância e dificuldades de traslado impediram uma empreitada de sucesso na preia indígena, isto aliado à belicosidade do povo bororo, que era o que estava mais "à mão", naquele período, pois habitavam as barrancas do Cuiabá, Coxipó, São Lourenço e a vasta região de cerrado do sul matogrossense, hoje ocupada por campos de soja. Não foi um período fácil, e, diga-se de passagem, que para ambos os lados.
O ouro certamente substituiu o interesse financeiro dos paulistas em detrimento da guerra e preia aos indígenas de Mato Grosso. Cidades e corrutelas foram surgindo e junto com elas famílias que tinham apreço à agricultura e pecuária.
Nossa gente passou por guerras, guerrilhas e revoluções. Por governos sérios e idealistas e déspotas sanguinários. Poucos foram os governantes que se voltaram à necessidade de ocupar espaços a fim de tornar Mato Grosso um Estado produtivo e sem necessidade de importar alimentos, equipamentos e gêneros de primeira necessidade, como se observa ao ler livros sobre nossa história dos últimos quase trezentos anos.
Segundo registros históricos tivemos no período pós-guerra do Paraguai um fluxo interessante de grupos de famílias estrangeiras, a exemplo de italianos, alemães, árabes e de outras nacionalidades. No entanto, a concentração dessas pessoas ficou mais restritas às áreas urbanas, sem reflexos na produção agropecuária. Ainda no final do século XIX, o sul do Estado, hoje território de Mato Grosso do Sul passou a receber levas de colonos gaúchos que se dedicaram à pecuária. Na região de Ponte Alta, no começo do XX, entre os municípios de Campo Verde e Chapada dos Guimarães se instalou denso grupo de colonos vindos do Ceará, que sofreu histórica seca naquele período. Essas pessoas se fixaram na terra e contribuíram para robustecer a demografia matogrossense daquele período.
Outras tentativas isoladas de fixar o homem à terra foram verificadas ao longo das décadas do século passado, com certo destaque para o governador Arnaldo Estevão de Figueiredo, que assumiu o governo em 1947.
Surgiu nesse período uma política consensual, passada de governo a governo, de colonização organizada pelo Estado, mas executada por particulares. Isto é, o Estado estabeleceu normas para as colonizadoras particulares, estatuindo módulos de terra dentro da faixa de 10.000 hectares, ao norte do Paralelo 16. Normas rígidas regulavam os projetos colonizadores, prevendo alocação de até 300 famílias por núcleo, devendo as colonizadoras se responsabilizar por infra-estrutura de escola, posto de saúde, campo de pouso, estradas de penetração e mais benfeitorias de base. Tratava-se de uma forma pioneira de colonização e misto Estado-Particulares. Esse modelo distanciava-se diametralmente do adotado pela União até então.
O Estado passou a amparar as atividades colonizadoras por medidas do momento, agilizando soluções emergenciais, por meio da estrutura versátil da Comissão de Planejamento da Produção (CPP).
Anos depois, o governo federal adotou a sistemática matogrossense, injetando os meios econômicos e técnicos de mais eficácia, estruturando a Fronteira Agrícola de Mato Grosso.
Em Mato Grosso nasceram municípios verdadeiramente agropecuários. O modelo adotado foi a monocultura no domínio de latifúndios. Para Mato Grosso se transladaram colonos de regiões problematizadas do Brasil e mesmo brasiguaios. Como consequência da migração maciça, Mato Grosso por um tempo passou a contar mais habitantes migrados do que nascidos no próprio Estado.
A colonização multiplicou o surgimento e criação das cidades de pequeno e médio porte. Verificou-se que ao mesmo tempo foram formados bolsões periféricos de moradias urbanas, a exemplo de Cuiabá e outras cidades, como Primavera do Leste, que acolheram desempregados sem terra, sem casa e sem endereço.
Portanto, vamos nos debruçar neste compêndio sobre a colonização que deu certo em Mato Grosso, que transformou esta terra num lugar de promissão: o celeiro do Brasil, quiçá do mundo. Tudo que escrevi nestas centenas de páginas são frutos da minha vivência e experiência com homens e coisas que transformaram sonhos em realidade, ao longo destas últimas quatro décadas.
Boa leitura!
Olívio Beltrão
(Por João Carlos Vicente Ferreira - Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso)
O paranaense Olívio Beltrão, empreendedor, executivo, poeta com alma de historiador e cronista, certamente se tornou, com suas pesquisas e escritos, uma importante referência bibliográfica da moderna ocupação territorial de Mato Grosso.
Este livro de texto coloquial é dedicado à colonização de nosso Estado, e deve ser lido com a mente voltada para as décadas de 1970/80, tanto em questões políticas quanto econômicas e sociais, para que sua compreensão seja mais proveitosa.
Vivíamos um período diferente. Impensável nos dias atuais, notadamente pelas questões ambientais, etnográficas, sociais e especialmente políticas. Estamos numa época em que o Congresso Nacional, diante de monumentais passeatas nacionais se sentiu acuado diante da então provável aprovação da PEC-137 - proposta de emenda constitucional que suprimia direitos do Ministério Público. Hoje seria impossível construir uma Rodovia BR-163 e, em suas laterais milhares de propriedades agrícolas e algumas dúzias de cidades e povoações. Não conseguiríamos, no entanto, estamos aí, na ponta. Somos o maior produtor de grãos do país. De carne também. Temos ótimos IDHs e confiança no futuro que se descortina com Céu de Brigadeiro.
Um fator que empurrou Mato Grosso em busca de crescimento foi a perda de território para constituição do Estado de Mato Grosso do Sul, em 11 de outubro de 1977, através da Lei Complementar n° 31, assinada pelo presidente Ernesto Geisel. Importante registrar que essa divisão sempre teve embates e acaloradas discussões ideológicas desde fins do século XIX. No entanto, o sul do então "Mato Grosso Uno", clamava para si os fatores de progresso econômico, baseado numa Campo Grande moderna e progressista em detrimento de uma Cuiabá sem infra estrutura para ser capital.
Velho sonho do Marechal Rondon e de outros ilustres matogrossenses, a Cuiabá-Santarém, com extensão de 1750 km, sendo que 793 km em território de Mato Grosso, foi o ligamento vinculatório inextricável para o sucesso do movimento colonizador ocorrido nas décadas de 1970/80. Beltrão lembra a saga dos irmãos Mário e Renato Spinelli e o trabalho reconhecido pela União em projetar um "picadão" naquilo que se transformou no projeto definitivo da 163, a rodovia que agregou e permitiu a vinda e estabelecimento dos milhares de colonos sulistas.
Foi a combinação desejada aos que queriam pôr mãos à obra, tomar iniciativas, ocupar os espaços que estavam em germe, em estado rudimentar e embrionário. Àqueles que queriam e transformaram sonhos em realidade. Que deixaram seus parentes, amigos e o chão em que nasceram e se dispuseram a trabalhar numa terra nova, sem intermitência.
Olívio Beltrão trata de nos apresentar ou rememorar personagens que fizeram este "Novo Mato Grosso" construído nos últimos quarenta e poucos anos. Não conseguiríamos êxito sem a presença em selva do Coronel Meirelles e todo seu efetivo do 9° BEC, dos Irmãos Villasboas e sua compreensão etnográfica; das ações políticas de nossos governantes da época: Fragelli, Garcia Neto, Frederico e Júlio Campos; os nossos abnegados educadores Louremberg Rocha e Osvaldo Sobrinho; dos corajosos e destemidos homens do mato, a exemplo de Reveria; dos colonizadores Ariosto da Riva, Ênio Pipino, Zé Paraná, José Bianchini e tantos outros importantes nomes que deixaram gravado na história seus feitos e sonhos.
Nesta obra magnífica de Beltrão vamos nos deparar com informações e fatos inéditos para a construção da história recente de nosso Estado. Certamente o grande interesse que Mato Grosso está despertando, ainda, em todo o País o levoua esta empreitada. Beltrão demonstra de modo irretorquível, categórico e probo, sua vivência com os principais personagens dessa epopéia. Moveu-o a escrever este livro o amor à Mato Grosso, à sua imensidão, à beleza natural e aos lances épicos de sua história.
Lendo este compêndio, o leitor vai compreender que este período profícuo dos anos 1970/80 forjou uma nova história, que agregou ao passado glorioso o ufanismo do presente e a crença e confiança no futuro.
Imprescindível esse livro para o estudo das coisas de Mato Grosso, como estímulo e fonte de conhecimento da nossa sociedade, para se mergulhar na memória histórica de um período demasiadamente importante para a nossa contemporaneidade.
João Carlos Vicente Ferreira - Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso.