Não é só uma ata
23 de Março de 2014, 05h00
Acompanho com atenção os desdobramentos das ações judiciais sobre supostas fraudes no registro da chapa do então candidato a senador Pedro Taques (PDT) nas eleições de 2010. Inicialmente fiquei surpreso. Mas, confesso, hoje o sentimento varia entre a tristeza e a indignação.
Os jornalistas que cobriram as eleições daquele ano em Mato Grosso, e se fiaram nas informações da Justiça Eleitoral, sabem que Taques foi candidato tendo como primeiro suplente o patrulheiro da PRF, José Antonio de Medeiros (PPS), e, na segunda suplência, o empresário Paulo Fiúza (ex-PV e hoje no SDD). Foi isso que divulgamos e foi esta a ordem apresentada aos milhares de eleitores na urna eletrônica, no dia da votação. Negar isso seria como afirmar que as eleições de 2010 não existiram. É negar a realidade, coisa comum entre tolos e mentirosos.
Olhando de fora, a impressão é que os autores das ações são movidos por interesses menores, pessoais e oportunistas.
Paulo Fiúza, conhecido pelo poder econômico, 'cresceu os olhos' ao perceber que Taques pode se eleger governador em 2014. Quer para si os quatro anos de mandato que restarão no Senado. Provavelmente ele sabe que isso seria fraudar a vontade manifesta pelos eleitores, mas, curiosamente, baseia seus argumentos em acusações de fraude contra os antigos companheiros.
A outra ação é movida pelo petista Carlos Abicalil, famoso pela articulação nos bastidores e pela capacidade de guardar mágoas. Segue no mesmo caminho, com uma pretensão mais ambiciosa. O ex-deputado federal do PT sustenta, com certa razão, que, caso se constate fraude no registro dos suplentes, a Justiça Eleitoral deverá considerar nulo também o registro do próprio candidato a senador. Se isso ocorrer, os votos dados a Pedro Taques serão inválidados e a vaga no Senado passará ao terceiro colocado naquele pleito - o próprio Abicalil.
Mas a coisa toda fica ainda pior quando analisamos o posicionamento adotado até aqui pelo próprio senador Pedro Taques. Diferente dos colegas da bancada mato-grossense no Senado (Jayme Campos/Dem e Blairo Maggi-PR), Taques é um especialista em Direito. Era procurador da República antes de entrar na política e sempre destacou-se pela postura legalista.
Não dá para acreditar que Pedro Taques não tenha acompanhado ou ao menos revisado os procedimentos legais visando o registro de sua própria chapa. Se tinha compromisso de garantir a primeira suplência a outra pessoa que não José Medeiros deveria ter assegurado isso antes da eleição, para evitar a suspeita de engodo eleitoral. Se não tinha compromisso com ninguém, deve agir com clareza em defesa do resultado expresso nas urnas. O que não dá é ficar fingindo desconhecimento e fugir ao debate.
É importante dizer que nas hipóteses aventadas pelos querelantes o prejuízo não seria apenas de José Medeiros ou do senador Taques. O sistema eleitoral e a própria Democracia sairão enfraquecidos se o resultado da eleição for mudado assim, no tapetão.
A maioria dos eleitores acredita na Justiça Eleitoral, que consome alguns bilhões do orçamento público a cada eleição visando aprimorar-se contra falhas e fraudes. Mas essa confiança será abalada caso se confirme que um problema dessa magnitude passou despercebido por tantos anos. Neste caso, será impossível impedir o surgimento de novas dúvidas. Cito duas: Se é possível fraudar uma eleição para senador, como confiar, por exemplo, na lisura das eleições municipais onde o número de candidatos é milhares de vezes maior? Será que vale a pena votar sabendo que nossa decisão pode ser mudada posteriormente em manobras incompreensíveis ao cidadão 'comum'?
É triste ver que muitos envolvidos nesta polêmica imaginam que estão apenas numa disputa por poder político ou econômico. Não percebem que, além dos próprios interesses e reputações, está em jogo também o prestígio de instituições importantes e conceitos fundamentais para a vivência democrática.
Estão brincando com fogo.
"Eduardo Ramos é jornalista em Rondonópolis