LITERATURA

Em seu segundo livro, Emerson Arruda traz as ‘Crônicas de um lugar comum’

Doutorando pela UFMT aborda suas percepções do cotidiano e propõe equilíbrio entre ciência e religião

por Robson Morais

23 de Março de 2018, 14h41

Em seu segundo livro, Emerson Arruda traz as ‘Crônicas de um lugar comum’
Em seu segundo livro, Emerson Arruda traz as ‘Crônicas de um lugar comum’

Foto: Sirlei Alves / GazetaMT

Na primeira entrevista da série especial 'Café no GazetaMT', a reportagem recebe o professor, teólogo, mestre em Educação e doutorando em História pela Universidade Federal de Mato Grosso -UFMT, Emerson Arruda. Um acadêmico, que propõe, acima de tudo, o equilíbrio entre duas bagagens adquiridas ao longo de sua formação também pessoal: a científica e a espiritual.

Isso porque o estudioso é um líder religioso influente, pastor na comunidade do bairro Cidade Alta, em Rondonópolis. Em "Crônicas de um lugar comum -percepções sobre o cotidiano", seu segundo livro, reuniu textos produzidos para jornais ao longo de quase oito anos e parte da ideia de universos complementares. A busca do pelo conhecimento aliada ao pensamento cristão. Contrapõe achismos e o estigma conservador e moralista atrelado por vezes à crença cristã.

Abaixo os principais trechos do bate papo, divididos em tópicos para facilitar a leitura e compreensão. O projeto 'Café no GazetaMT' será publicado no site todas as sextas-feiras.

GazetaMT (GMT): Este primeiro livro, 'Educar em valores -representações de pais e professores' foi o resultado de sua primeira pesquisa, dissertação do projeto de Mestrado em Educação.

Emerson Arruda (E.A):O primeiro livro surgiu em 2012 e é resultado de pesquisa de campo sobre a percepção de pais e professores sobre o tema Educação.

GMT: Agora temos este segundo, em crônicas...

E.A: Sim, este segundo é uma coleção de materiais produzidos ao longo de quase oito anos. Foi lançado pela editora Fonte Editorial. São percepções, pequenas reflexões produzidas por alguém que tem formação acadêmica e, ao mesmo tempo, uma perspectiva religiosa.

A ideia é mostrar que o religioso tem sua percepção de mundo e nem sempre este pensamento parte de uma pauta moralista e conservadora, tem capacidade de pensar refletir de forma crítica. As pessoas imaginam que o religioso é um alienado.

GMT: Essa ideia de religioso com pensamento crítico é um pensamento que não o da maioria. Houve boa aceitação nos meios religioso e acadêmico?

E.A: Sim, o livro foi aceito tanto pela comunidade acadêmica quanto pela religiosa. Processos de alienação existem em qualquer lugar, inclusive na universidade, um espaço plural que, ao mesmo tempo, carrega a existência de preconceito e até conservadorismo. O processo de pesquisa, entretanto desconstrói isso, porque apresenta uma percepção de mundo.

Se você sentar, por exemplo com um budista ou um ateu, verá os múltiplos olhares sobre a realidade. Um pensamento marxista e um freudiano também partem de pontos diferentes, mas a riqueza está justamente em compreender estes múltiplos olhares sobre a realidade. Quando se tem essa possibilidade se enriquece a produção do conhecimento.

GMT: Talvez por isso, pela ideia do conflito, muitos jovens, segundo pesquisas, abandonam a igreja após o ingresso nas universidade e faculdades. Você percebe desta forma? Seu trabalho vem para quebrar isso?

E.A: Acredito ser possível que uma pessoa genuinamente tenha uma experiência religiosa e possa conciliar isso com a experiência acadêmica em seu processo de formação. Historicamente, as universidade nascem interligadas ao cristianismo. Este, o cristianismo, sempre partiu do pressuposto que de que conhecimento é um benefício.

Na produção do conhecimento produzida por homens, o desafio é encontrar elementos e sinais da espiritualidade, da existência de um ser acima, inteligente e que possibilitou aquela criação e a criação de todas as coisas. Por trás das construções teóricas há sempre esta presença. A partir do nada, nada surgiria.

GMT: Estamos falando de uma espécie de regressão? É por meio dela que chegamos à pergunta que ninguém responde e aí cabe a espiritualidade?

Sempre é importante avaliar que existem linhas, conceitos  e perspectivas. Eu sou um cristão protestante, presbiteriano, de uma linha de perspectiva calvinista. Não sou de linha pentecostal nem neopentecostal. O grande problema da universidade e das pessoas que ingressam sendo cristas é não ter esta separação, esta divisão. Existem dentro do universo do protestantismo muitas linhas, das mais conservadoras, que dizem que o conhecimento pode ser alienador e nos fazer perder a capacidade de crer, até às mais que consideram que recebemos de deus alguns atributos, como a espiritualidade de também a capacidade de desvendar a lógica racional por trás das coisas, papel da ciência. A fé não é irracional, tem lógica, é suprarracional e aí é que se complementa com a ciência.

GMT: Certo, mas esta falta de divisão para quem observa de fora é, em parte, culpa da própria igreja. Esse estigma dos mega pastores, da teologia da prosperidade...

E.A: Eu concordo com esta afirmação e principalmente com o fato de que quando se olha pro movimento protestante se observa um suposto avanço, mas na verdade ele ocorre em muito de proselitismo, sem o conceito do que é ser cristão em si. O conceito está sempre pautado por um caminho moralista. Tudo o que envolve o moralismo e conservadorismo é atrelado ao cristianismo. Claro que temos elementos morais éticos, mas sempre reflexivos.

Defendo que todo mundo que exerce uma função tem que ter capacitação. A grande massa não tem formação. Nas mega igrejas as pessoas estão ouvindo o que um suposto pregador fala.

Existem dons espirituais, mas isso não exclui o fato de que é necessário a busca pela qualificação. A formação me dá a possibilidade de fazer este salto cultural.

GMT: Os dois universos se complementando novamente. Vamos trazer este assunto mais para dentro do livro. Quais os temas? De onde surgiu a inspiração para o texto de crônica, um estilo bem diferente?

E.A: Tudo começa no ensino médio, nas aulas de redação. A professora via em mim certa habilidade, me aconselhou a investir na escrita, escreveu um texto meu no quadro e aquilo me tocou. Tempos depois, em 1996, tive uma experiência religiosa muito forte com a Igreja Presbiteriana do Brasil.

Passei a atuar na comunidade, me mudei para São Paulo, ordenado ao ministério pastoral e aos poucos fui aprimorando o conhecimento, lendo muita coisa por conta da universidade.  A formação acadêmica me deu a visão destes universos complementares.

GMT: Até então essa visão complementar não existia...

E. A: A Igreja Presbiteriana do Brasil parte da linha do movimento reformado, que defende o conhecimento como expressão daquilo que Deus permite que o homem faça. Essa é uma noção básica. Fui incentivado a ler os clássicos da filosofia, da história e outros, comecei a perceber os sinais de Deus por trás das escritas. Sempre há elementos espirituais. Sempre há elementos espirituais, como na letra de uma música, por exemplo, onde se busca o que chamamos de redenção -diferente da redenção, na teologia, produzida por Deus ou por Cristo-, um sentimento de libertação de uma realidade ruim.

A academia, por sua vez, não chama isso de redenção, dá outras categorias para coisas que já pensamos. Quando eu percebi que era possível construir uma reflexão sobre isso, passei a produzir os primeiros textos.

GMT: Os radicalismos...

E.A: Todo radicalismo é perigoso. Seja ele religioso, teórico ou acadêmico. Pensar diferente não faz de ninguém um inimigo, são apenas dois estranhos tentando perceber uma realidade. Sou um cristão, supostamente conservador, líder religioso, mas principalmente um ser que pensa.

Na maioria das vezes quando se vai discutir alguma coisa, se procura os opostos, que vão brigar. Não se pensa em sentar de maneira educada, criar uma relação com o mínimo de ética e respeito. A mídia hoje se alimenta desses conflitos e precisa dos radicais, da esquerda e da direita, progressistas e conservadores. Nunca há espaço para os equilibrados.

Alguns radicais ignoram de fato, não tem conhecimento, outros o tem e querem defender uma agenda. Há radicalismos até dentro dos movimentos sociais. É preciso produzir algo que ao menos trinque esta coluna, esse é o papel do meu livro.

...

O livro "Crônicas de um lugar comum -percepções sobre o cotidiano" pode ser comprado pelo site da editora Fonte Editorial.