OPINIÃO

Meninas e mulheres diante da saga Trump (e seus iguais)

por George Ribeiro

23 de Março de 2026, 06h10

None
Divulgação

O mês das mulheres nos serve para reconhecer as conquistas sociais, políticas, econômicas e reforçar a luta feminina contra a desigualdade de gênero e a violência. Sua origem remonta aos movimentos trabalhistas do início do século XX, que reivindicavam direitos, dignidade e igualdade. Reconhecer essa memória é dever de homens respeitáveis.

Mais de um século depois, a realidade ainda expõe estruturas machistas, marcadas por velhos vícios: dinheiro, poder e preconceito. Em muitos casos, esses elementos caminham lado a lado com lascívia, perversidade e violência. Certos homens que ocupam os mais altos cargos tendem a desenvolver uma sensação de impunidade que cresce à medida que acumulam influências.

Paradoxalmente, algumas mulheres, depois de conquistarem o direito de participar da democracia, às vezes acabam votando em representantes do pior calibre político e moral. São personalidades que, uma vez no poder, não hesitam em reproduzir discursos e práticas que atentam contra a dignidade e a vida feminina. A guerra e todas as suas consequências é um exemplo de decisões tomadas predominantemente entre homens escolhidos pela população.

A trajetória política de Donald Trump, nos Estados Unidos, tornou-se um símbolo dessa crise ética contemporânea. Segundo investigações divulgadas pela imprensa internacional, acusações graves, como a tentativa de golpe em 2020 e a proximidade com escândalos sexuais com meninas e mulheres, no caso Jeffrey Epstein, continuam cercadas por disputas judiciais, polarização política, controvérsias públicas e censura. Ainda assim, sua permanência no centro das decisões, e todas as suas consequências, revela a fragilidade das instituições estadunidenses diante de lideranças que manipulam a opinião pública e transformam a política em espetáculo global.

Os ataques raciais e as provocações públicas também marcaram esse estilo político. Trump chegou a compartilhar conteúdos ofensivos contra o ex-presidente Barack Obama e a ex-primeira-dama Michelle Obama, comparando-os com macacos. O gesto foi criticado por reforçar estereótipos raciais e estratégias baseadas na humilhação pública e no estímulo ao ódio. Ele naturaliza preconceito em seus discursos oficiais e extraoficiais.

No Brasil, Jair Bolsonaro reproduziu práticas semelhantes. Durante sua trajetória política, apresentou declarações ofensivas contra negros, nordestinos, indígenas, LGBTs e, também, mulheres. Um dos episódios mais conhecidos ocorreu no plenário da Câmara dos Deputados, quando afirmou à deputada Maria do Rosário que “só não a estupraria porque ela não merecia”. A declaração filmada e amplamente repercutida na imprensa se tornou símbolo da banalização da violência política contra mulheres. Xingar e mandar jornalistas calarem a boca também foi um de seus registros.

Quando o ex-presidente brasileiro relatou publicamente um episódio perturbador, defensores dos direitos das crianças e adolescentes não reagiram na mesma proporção. Em entrevista divulgada, afirmou que, ao parar a motocicleta em uma comunidade periférica, observou meninas de 14 e 15 anos “arrumadinhas” e disse que “pintou um clima”, chegando a entrar na casa delas. Declarações desse tipo revelam não apenas imprudência verbal, mas uma cultura política que naturaliza a objetificação de meninas e mulheres.

Quando líderes políticos de grande alcance na mídia utilizam esse tipo de discurso, acabam legitimando condutas sociais que ferem diretamente a dignidade feminina. Isso estimula estruturas culturais que historicamente permitiram a naturalização da violência de gênero e que influenciam pessoas comuns com mais alcance e velocidade.

E, como já não bastasse os altos números da violência doméstica, existem também as guerras, que significam meninas mortas, mães enlutadas, corpos violentados e futuros interrompidos. Em muitos conflitos, mulheres tornam-se vítimas diretas de bombardeios, como se até a mira fosse misógina e covarde. Por exemplo, a imprensa divulgou que os ataques militares partindo dos EUA atingiram uma escola de meninas no Irã. É desumano, independente de lado, admitir o extermínio de pessoas inocentes. Centenas de meninas e mulheres foram mortas aos olhos do mundo.

Nesse contexto, uma pergunta inquietante: seria a guerra uma forma de desviar a atenção das pessoas da crise de um país e de graves escândalos pessoais de um homem poderoso e inconsequente?

 

George Ribeiro é professor, pós-graduado em gestão pública e mestrando em Educação (PPGEduc/UFR). @georgeribeiroo