“O leitor” entre a transitividade do verbo “amar” e o letramento
24 de Março de 2016, 16h53
Hanna Schmitz, personagem do filme "O Leitor" (2008), lembra muito Fräulein, personagem Mário de Andrade em "Amar: verbo intransitivo" (1927). Hanna, analfabeta, vive num período entre-guerras, caracterizado por uma profunda crise econômica, social e moral. Como Fräulein, é uma alemã pobre, solteira com mais de 30 anos e sem família. As duas, por razões que não cabe aqui discutir, envolvem-se sexualmente com adolescentes. Mas, em Hanna, o inusitado é sua capacidade de impor ao amante adolescente o dever de ler para ela antes do ato sexual. De ato em ato, Hanna vai tendo contato com clássicos da literatura mundial com os quais muitos alfabetizados nunca chegarão a tê-lo.
No contexto educacional, a trama não passa despercebida. Retrata a importância da oralidade como objeto de letramento. Hanna não sabe ler, mas tem contato com a escrita. Segundo Angela Kleiman (2008, p.18), "em certas classes sociais, as crianças são letradas, mesmo antes de serem alfabetizadas". Para Kleiman (2008), isto é possível "porque elas participam de eventos de letramento que dão a elas competência para utilizarem esses conhecimentos em práticas discursivas letradas (característica da oralidade letrada)".
Na concepção do Letramento Ideológico, segundo Mortatti (2004, p.18), "analfabetos também podem praticar a leitura e a escrita por outras formas de atividades humanas que não seja a escola: atividades políticas, movimentos da sociedade civil, organizações e outras que podem relacionar-se a transformações cognitivas". Ora, Hanna, perspicaz, sabe capturar toda e qualquer possibilidade de acesso ao mundo da escrita, seja no trabalho seja no seu espaço íntimo.
Se letramento pode ser visto como "o resultado da ação de ensinar e aprender as práticas sociais de leitura e de escrita", como afirma Mortatti (2004), Hanna é uma pessoa letrada. Nos encontros íntimos, aprende e ensina. Aprende, pela oralidade, o mundo da escrita e, na contramão, assume a posição de ensinante. O menino, enlevado pela expectativa do prazer do ato sexual, transforma-se em menino-leitor. Cabe aqui mencionar as palavras de Kleiman (2008, p.28) quando diz que "depois das reflexões de Bakhtin sobre a linguagem e das análises do discurso, isto é, análises que consideram a prática social como constitutiva da linguagem, a redução da dimensão interpessoal na escrita fica difícil de ser sustentada". É no processo da interação pela linguagem que os sujeitos vão se constituindo, apropriando-se do conhecimento e transformando-se.
Nesse sentido, Mortatti (2004) afirma que letramento é "condição que adquire um grupo social, ou um indivíduo ao apropriar-se da escrita e de suas práticas sociais". Hanna dá mostras dessa apropriação. Defende-se da fome, do frio, da solidão, de assédios masculinos, intolerâncias da sociedade conservadora e do que ela considera mais vergonhoso: sua condição de analfabeta. Alguma leitura de mundo a teria levado a perceber que "leitura e escrita são bens culturais [...] (saberes) que devem ser apropriados [...] como condição necessária para mudança de estado ou condição nos aspectos cultural, social, político, linguístico, psíquico" (Angela Kleiman, 2008, pág.100).
Hanna é articulada e estrategista. Prefere a condenação à revelação de seu segredo. A mancha dos crimes era pública. A do analfabetismo tinha de ser privada.
O ser humano, ao tomar consciência da sua própria existência, pode tornar-se muito mais vulnerável ao reconhecer a nulidade dela. Hanna parece ter-se reconhecido nessa nulidade. Persegue os eventos de letramento como forma de superar-se. Para Street (1984), o modelo ideal de letramento seria o ideológico, em que as "práticas de letramento, no plural, são social e culturalmente determinadas, e, como tal, os significados específicos que a escrita assume para um grupo social dependem dos contextos e instituições em que ela foi adquirida". Esse modelo pressupõe a existência, e investiga as características de grandes áreas de interface entre práticas orais e práticas letradas."
Mas à época de Hanna, as tantas outras faces do letramento não foram consideradas. Ela foi vítima de um sistema excludente. Mesmo assim, soube fazer leituras do mundo, antes mesmo de conhecer o mundo da escrita. Leu os olhares, gestos, comportamentos. Nunca, porém, conseguiu, pela escrita, representar o seu mundo, falando sobre ele e interpretando-o. Tampouco, pôde alcançar a liberdade pela escrita. Antes disso, já recebera a sua sentença de morte.
Hanna Schmitz viveu esse drama fictício na primeira metade do século XX. Há quase um século. Tempo demais para uma sociedade altamente tecnológica e avançada. Tempo de menos para a escola incorporar as muitas facetas do letramento humano. Enquanto isso, espalhadas por aí, sobrevivem tantas Annas e Annes, Marias e Marys, Graces e Graças, Dianas e Dayanas crentes de que, para se adaptar à realidade, é mesmo preciso considerar a intransitividade do verbo "amar", na sua mais verdadeira acepção.