Problemas valem mais do que soluções

por Por Onofre Ribeiro

24 de Maio de 2013, 10h18

Problemas valem mais do que soluções
Problemas valem mais do que soluções

   Onofre Ribeiro é jornalista em Mato Grosso         Dia desses escrevi neste espaço um artigo sobre o planejamento que os militares utilizaram no período de 1964 e 1985 quando governaram o Brasil. Como era de se esperar, deu muita confusão. Na verdade, não se tratava de defender ou não o regime militar, mas tão somente reconhecer que eles sabiam o que queriam e planejaram pra chegar lá.

            A questão é que hoje não existem planejamentos mínimos nos governos federal e estaduais. Em época de campanha fala-se sobre alguns temas, mas sem profundidade. Como os eleitores são perfeitamente alienados o jogo é claro: um finge que sabe do que está falando e o outro finge que acredita. Chegando ao poder, os eleitos aprofundam nos erros e desacertos dos antecessores. Chafurdam nos problemas, mas nunca na discussão das soluções.

            Aliás, este talvez seja o maior defeito das gestões públicas no país. Na falta de planejamento que indique caminhos certos e desenhem cenários futuros, falar dos problemas é uma saída confortável. Do tipo: "nós precisamos atacar de frente os problemas da saúde...blá, blá, blá". Mas não passa disso. Como os problemas são visíveis, a certeza de que a sociedade os vê mantém nos governantes o discurso permanente de "atacar a saúde". Mas nunca ataca nada, porque o discurso pode render votos e a solução dos problemas pode não render os mesmos votos.

            Prova disso é que o lançamento de placas de obras é muito maior do que a frequência de inaugurações. O lançamento da obra com uma placa bem grande dá à sociedade a ideia de que o "problema" será "atacado". Mas em geral não vai além da placa na maioria gritante dos lançamentos. Tenho o cuidado de catalogar placas enferrujadas nas minhas muitas viagens pelo interior de Mato Grosso e por outros estados. Placas novas e antiquíssimas enferrujadas ou perdidas dentro de matagais onde fervorosos discursos de "atacar" problemas morreram no mesmo dia do lançamento da placa.

            Essa cultura de "atacar" os problemas e nunca gerar soluções vem se tornando um dos principais elementos da manutenção e da construção do poder político no Brasil. Isso vai funcionar durante muito tempo enquanto a sociedade acreditar nesse conto de fadas. Quando existe um planejamento efetivo, conhece-se os problemas, se qualifica e quantifica-os dentro da realidade atual e os dimensiona para as realidades futuras, e depois traça os cenários de organização, de projetos, de financiamento e, por fim, de execução.

            Quando se tem o conjunto de planos de todos os segmentos como saúde, educação, estradas, portos, segurança, políticas sociais, de justiça, de arrecadação de tributos, etc., se tem um planejamento geral. Mas quando apenas se discute aspectos dessas questões destacando apenas as falhas, chamadas de "problemas", então se tem o caos. É o que se tem hoje disseminado nesse país.

            Aqui torno a reconhecer a eficiência dos militares quando governaram o Brasil. Erraram feio na democracia, mas acertaram naquilo que queriam acertar que foi o desenvolvimento econômico. O que se quer acertar agora, senão os "problemas"?

Onofre Ribeiro é jornalista em Mato Grosso

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