Conservadores Reaças
25 de Novembro de 2013, 07h38
Vejo petistas e anti peessedebistas (independente a qual sigla sejam "prós"), muitos dos quais, amigos meus, se contorcendo e soltando injurias à condução dada pelo ministro do STF, atualmente na condição de presidente da casa, Joaquim Barbosa, ao famigerado caso do Mensalão.
Ressaltam os desmandos de Barbosa; os desrespeitos à norma; a desconsideração da fórmula estabelecida; o casuísmo de sua postura; a intenção declarada de desmoralizar uma parte em clara intenção de valorização de outra. Acrescenta-se a cada oração deste parágrafo o termo "suposto": supostos demandos, suposta desconsideração; suposta intenção.
Corroboram, mesmo que veladamente, com a auto intitulação dos condenados - principalmente os ligados diretamente a cúpula da estrela trabalhista - de presos políticos. Alertam para a covardia e o reacionarismo de Barbosa e evocam um novo candidato a herói: Ricardo Lewandowski.
Excelente excelentíssimo, Ricardo convence, hoje, os petistas, e, ironicamente, a esquerda como um todo - muito devido a união anti peessedebista formalizada - muito mais do que o inescrupuloso Barbosa: medido, formal, criterioso e de discernimento apurado são algumas das qualidades elencadas ao revisor do julgamento que tanto tem incomodado meus amigos.
Para os meus amigos, o revisor se tornou em tempo quase recorde o ícone da defesa dos direitos humanos, da análise social certeira, e da boa prática jurídica. O recorde ainda pertence ao relator que se tornou um vendido, reacionário, desmedido, interesseiro e, se ninguém o parar, próximo fuhrer da elite leitora das revistas que começam com Ve e terminam com xame.
Se eu concordasse com meus amigos, meu texto acabava aqui, com a próxima afirmação: Joaquim Barbosa não entende nada de direito. Muito menos os humanos.
Mas eu aposto que meus amigos petistas, anti-peessedebistas e de esquerda clássica (a mesma que chama o Genoíno e Dirceu de presos políticos) preferem esquecer que tanto Joaquim Barbosa quanto Ricardo Lewandowski apenas foram coerentes com o que sempre foram.
Preferem esquecer que Joaquim Barbosa é um reformista nato, e Ricardo Levandowski um legalista de mão cheia. Preferem esquecer como Joaquim Barbosa sempre se baseou em princípios sociais e legais acima da norma crua; como sempre optou, desde a chegada ao STF, a votos e conduções mais abstratas de maior ponderação filosófica e epistemológica; como sempre foi a perspectiva mais próxima a uma dinâmica de Common Law, que o direito brasileiro já presenciou.
Lewandowski realmente é quase o oposto de Joaquim Barbosa. Defensor da preservação da norma posta, sempre apresentou posicionamentos menos ousados, mais medidos sim, mas desafio meus amigos petistas, anti-peessedebistas e de esquerda clássica, a dizer "mais justos".
Desafio, porque a dinâmica de ambos não apresentou ineditismos no caso do mensalão: pelo contrário, são retratos dos posicionamentos que ambos já apresentavam há tempos.
Desafio meus amigos petistas, anti-peessedebistas e da esquerda clássica a fazer o mesmo Juízo da "falta de critério" de Joaquim Barbosa quando disse que "Dignidade humana é a noção de que todos, sem exceção, têm direito a uma igual consideração" no seu voto da união homoafetiva.
Aqui abro parenteses: De acordo com Barbosa, a Constituição "estabelece, de forma cristalina, o objetivo de promover a justiça social e a igualdade de tratamento entre os cidadãos".
Desafio meus amigos petistas, anti-peessedebistas e de esquerda clássica a encontrarem o reacionarismo de Barbosa nas suas considerações quando vetou a extradição de Cesare Battisti, votou a favor da constitucionalidade da política de cotas raciais e ainda ao votar pela demarcação contínua da reserva Raposa Serra do Sol.
Ironicamente meus amigos petistas, anti-peessedebistas e de esquerda clássica ignoram o legalismo de Lewandowski, que não venho aqui para chamar de direita, afinal Lewandowski também votou pela demarcação contínua da Raposa do Sol, e quem, de posicionamento alinhado a direita, em sua sã consciência votaria algum posicionamento assim. Mas aponto sem medo a via conservadora (nos moldes da democracia cristã) de TODOS os posicionamentos e votos de Lewandowski.
Nos moldes conservadores da democracia cristã, Ricardo Lewandowski fez ressalvas em seu voto favorável à união homoafetiva. Ele votou pelo reconhecimento da união homoafetiva como uma "entidade familiar", mas criou limitações, ao dizer que alguns direitos se aplicam apenas a relações heterossexuais.
Ricardo Lewandowski não detalhou em seu voto quais seriam esses direitos exclusivos de casais de pessoas do sexo oposto.
É o mesmo Lewandowski que votou pela extradição de Battisti. O mesmo que foi um dos únicos dois a votar contra a liberação da interrupção de gestação de feto anencéfalo (seu voto, evocado como aula de moral e altruísmo pelos conservadores). O mesmo que revisou o julgamento do Mensalão.
Engraçado é que vejo petistas e anti peessedebistas (independente a qual sigla sejam "prós"), muitos dos quais, amigos meus, se contorcendo e soltando injurias à condução dada pelo ministro do STF, atualmente na condição de presidente da casa, Joaquim Barbosa. O mesmo Joaquim Barbosa com quem esses mesmos petistas e anti-peessedebistas concordam, e até militam, em prol de causas que seguem na linha de raciocínio do ministro.
Nas ocasiões anteriores, jamais teria sido atribuído a Joaquim Barbosa a leitura exaustiva da Veja. No episódio do mensalão parece ser tudo o que ele fez.
A incoerência é de quem?! O casuísmo é de quem?
Joaquim Barbosa é sim um reformista; é sim alguém que não se atém puramente a norma pura, mas faz uso abundante de seus axiomas; é sim o mais próximo que o Brasil tem de uma common law, mais dinâmica, menos engessada.
Vejo todo esses espasmos de petistas, anti-peessedebistas e esquerda-clássica, muitos dos quais, amigos meus, como um puro caso triste e ignorante de puro partidarismo (ou anti). Partidarismo de uma esquerda que, conservadora como tem se escancarado - desde as manifestações de junho - como todo bom conservador, apenas não aceita ser desafiado, confrontado.
Acredito sim que outros julgamentos de poderosos devem ocorrer com igual rigor, e que se for pra não sobrar nenhum dos poderosos vigentes, que seja. Mas vocês que por tanto tempo evocaram e pregaram reformas e mudanças, sinto dizer, mas se tornaram conservadores reagindo.
Bráulio Maglhães, 24 anos, é Jornalista e Social Media Rondonopolitano. No Facebook é https://www.facebook.com/braulioops e no Twitter https://twitter.com/Braulioops