OPINIÃO

A revanche silenciosa da América Latina nas terras raras

por Fabio Ongaro

25 de Fevereiro de 2026, 06h00

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Divulgação

Durante décadas, a América Latina foi vista como fornecedora clássica de soja, minério de ferro, petróleo e proteína animal. Um continente de commodities tradicionais, quase sempre na periferia das cadeias tecnológicas globais. Mas o mapa estratégico do século XXI está sendo redesenhado e ele passa pelas terras raras.

Antes de tudo, é preciso esclarecer: terras raras não são exatamente “raras”. O termo engloba 17 elementos químicos, como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, fundamentais para motores elétricos, turbinas eólicas, ímãs permanentes de alta potência, baterias, mísseis guiados, radares, semicondutores e praticamente toda a infraestrutura da transição energética e da indústria de defesa. Um carro elétrico pode usar até 1 kg desses elementos; uma turbina eólica offshore, centenas de quilos.

O ponto central não é a existência geológica, mas a concentração da cadeia produtiva. Hoje, a Ásia domina amplamente o setor. A China responde por cerca de 60% da produção global de óxidos de terras raras e, mais relevante ainda, por algo entre 85% e 90% da capacidade mundial de refino e separação química, que é a etapa de maior valor agregado.

Em reservas estimadas, a distribuição global é relativamente dispersa: a Ásia concentra pouco mais de um terço, a América do Norte algo próximo de 15%, a Oceania cerca de 5% a 7%, e a América Latina, somando Brasil e outros países andinos, gira em torno de 15% a 20% das reservas conhecidas. A África também possui fatia relevante, próxima de 10% a 12%. Mas reservas não significam poder estratégico. Quem controla o refino controla a indústria. É nesse contexto que a América Latina começa a sair da margem e entrar no centro da discussão geopolítica.

O Brasil detém uma das maiores reservas potenciais de terras raras fora da Ásia. Estimativas indicam que o país pode estar entre os três maiores detentores globais de reservas. Projetos em Minas Gerais, Goiás e Bahia avançam na exploração de depósitos associados a carbonatitos e argilas iônicas, estas últimas particularmente relevantes por permitirem extração menos intensiva em explosivos.

O desafio brasileiro não é geológico; é industrial. O país ainda carece de escala de separação química e tecnologia de refino comparável à asiática. Nos últimos anos, porém, parcerias com empresas privadas e incentivos regulatórios sinalizam uma tentativa de internalizar etapas da cadeia, reduzindo a dependência de exportar concentrado bruto.

A Argentina, por sua vez, entra no jogo por duas frentes. A primeira é o lítio, tecnicamente não classificado como terra rara, mas igualmente crítico para baterias e armazenamento energético. O país integra, com Bolívia e Chile, o chamado “triângulo do lítio”, que concentra mais de 50% das reservas globais do mineral. A segunda frente é a abertura política e regulatória promovida pelo governo de Javier Milei.

O chamado “acordo Milei-Trump”, ainda em consolidação institucional, sinaliza uma aproximação estratégica entre Buenos Aires e Washington no campo de minerais críticos. Para os Estados Unidos, reduzir a dependência chinesa tornou-se prioridade de segurança nacional. Incentivos financeiros, garantias de compra e apoio tecnológico podem transformar a Argentina em fornecedor preferencial de minerais estratégicos. Para Milei, trata-se de atrair capital e reposicionar o país como elo confiável da cadeia ocidental.

Essa articulação tem efeito indireto sobre o Brasil. Um eixo sul-americano de minerais críticos, com Argentina alinhada aos EUA e Brasil ampliando capacidade produtiva, fortalece o continente como alternativa sistêmica à concentração asiática.

A revanche latino-americana, portanto, não é ideológica; é estrutural. O mundo caminha para eletrificação, digitalização e reindustrialização verde. A Agência Internacional de Energia projeta que a demanda por minerais críticos pode quadruplicar até 2040, dependendo do ritmo da transição energética. Nesse cenário, terras raras deixam de ser nota técnica e passam a ser instrumento de política externa.

A questão central será: a América Latina repetirá o padrão histórico de exportar matéria-prima bruta ou conseguirá internalizar tecnologia, refino e manufatura de componentes? Se optar pelo segundo caminho, não estará apenas vendendo minério, estará vendendo soberania estratégica.

O continente que por décadas esteve “de lado” pode, silenciosamente, tornar-se peça-chave na disputa entre Washington e Pequim. E, desta vez, a vantagem não virá apenas do subsolo, mas da capacidade política de transformar recurso natural em poder geoeconômico.

Por Fabio Ongaro, vice-presidente de finanças da Câmara Italiana do Comércio de São Paulo (Italcam), economista e empresário no Brasil, CEO da Energy Group