PRESSÁGIO?

Em 2014, ex-ministro Ciro Gomes já adiantava em análise o segundo mandato de Dilma

por Robson Morais

25 de Abril de 2016, 10h16

Em 2014, ex-ministro Ciro Gomes já adiantava em análise o segundo mandato de Dilma
Em 2014, ex-ministro Ciro Gomes já adiantava em análise o segundo mandato de Dilma

O ano era 2014, já em reta final após a vitória nas urnas que daria à presidente Dilma Rousseff (PT) mais quatro anos de governança. Naquele momento pouco se sabia quanto ao desenrolar do segundo mandato, as promessas de defesa às bandeiras sociais ou habilidade política até então jamais demonstrada pela chefe da República. Mas algo trágico, porém, se anunciava em relação à forte aliança junto ao PMDB e a continuidade de Michel Temer como vice. Numa análise pontual e certeira, feita àquela época pelo ex-ministro nos governos Itamar Franco e Lula, Ciro Gomes (PDT), a opinião é a de que o "racha" neste 2016 era mais que previsível.

Em sua página oficial numa rede social, Gomes republicou uma entrevista em que afirma, taxativamente, quais as opções de Dilma naquele pós eleições e as consequências das escolhas que se desenhavam. As duras críticas se iniciam a Temer e à urgência do fim à coalizão PT/PMDB. Como um presságio, Gomes cita até uma possível queda de Dilma da presidência. "É inacreditável, o Michel Temer era o deputado federal menos votado do Estado de São Paulo, não se elegeria deputado federal nestas eleições e de repente se torna o vice presidente da República. Em nome de quê? Em nome de representar quais valores? quais interesses? quais regiões? quais núcleos populares?... Nada. É só o "cartóriozão" do PMDB. Agora que este mal está feito, só tem um jeito: é a presidente passar uma risca no chão e dizer "é daqui pra trás". Se ela não fizer isso ela vai pro chão. Desta vez ela vai pro chão (em tom taxativo). Não encerra o mandato, olha o que eu estou falando aqui".

Anos depois, o Brasil se vê em meio à crise que já abriu a possibilidade de um novo processo de impeachment contra presidência. Neste sentido, mais que oráculo de governo, as declarações de Gomes o reafirmam como experiente político. Dos tempos de Itamar e Lula, o pedetista ataca as relações e compromissos eleitoreiros herdados durante os quase oito anos de Dilma, à escolha assinada pela própria chefe.  Nas declarações dadas em 2014: "Existe possibilidade de demarcar campo. Até porque você tem um núcleo de picaretas profissionais, agressivos e ativos, um núcleo de gente séria, que vai ficando cada vez mais longe (na medida em que este primeiro fica cada vez mais perto), e tem um meio de campo que não comprometimento de valores mas precisa sobreviver... Se a linguagem prestigiada for aquela da esculhambação eles encostam pra lá, mas se você prestigiar este outro lado eles vem pra cá. Agora, isso exige lucidez, militância, consciência política, equipe. Tudo o que Dilma não tem". "Esta coalizão PT/PMDB, da forma em que está, acostumou-se a fazer uma seleção às avessas: quanto mais picareta, mais incompetente, maior o prestígio".

De volta aos tempos atuais, parece ser tarde demais para afirmar que Dilma terá os tais atributos de governabilidade citados pelo ex-ministro. A presidente continua sem habilidade para articular, papel que seria dado a Lula caso assumisse a Casa Civil mas a estratégia foi barrada pela Justiça. Não possui base aliada numerosa e perdeu nas águas derramadas pelo PMDB seu alicerce junto à Câmara dos Deputados.

Frente à Câmara, o deputado Eduardo Cunha, classificado este mês como "gangster" pelo próprio Ciro Gomes,  comanda a articulação que visa atingir dois alvos com um único tiro: a derrubada do atual governo e a blindagem quanto às investigações que o acusam de desvios numerosos e contas secretas na Europa que o tornaram réu na Operação Lava Jato.

Prestes a se tornar presidente da Câmara, ainda em 2014, Cunha, assim como a cúpula barganhista do PMDB, também foi alvo de Ciro. "Este cara deve ser, entre uns mil picaretas, o picareta mor. Eu conheço este cara desde o governo do Collor, quando ele operava o escândalo do PC Farias na Telerj.... E ele é que banca os colegas. Todo mundo sabe disso. Antigamente o picareta procurava o bastidor, a sombra.  Hoje quer ser presidente da Câmara".