OPINIÃO

A incrível arte de Ilton Silva

por Rosildo Barcellos

26 de Janeiro de 2026, 06h00

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Divulgação

O Sul-mato-grossense, de Ponta Porã, Ilton Silva (1943-2018) é o criador de um imaginário com extrema força pictórica, arrisco afirmar que em suas obras vislumbro uma versão pantaneira e vibrante do cordel, com verdes exuberantes e seres reais e imaginários que integram o cotidiano da região a um universo enigmático e fantástico, em uma expressão ao mesmo tempo ampla e irrestrita.

Relembro uma entrevista do artista, em comento neste artigo, para o meu caríssimo amigo José Eduardo Gallindo Novo, para o “Nossa Música é Assim”, que aniversariou em 11 de janeiro próximo passado e inclusive muito me orgulho de ter sido entrevistado por ele. Introdução e agradecimento feito; num certo episódio o pintor explanava a Zédu , o quanto suas obras foram inspiradas pelo cultivo da erva-mate, Ilton Silva retratou trabalhadoras, benzedeiras e crianças em telas de um estilo alegre e divertido, que revela aspectos dos costumes indígenas, da cultura portuguesa e da própria floresta, personagem sempre presente em seu trabalho.

A simplicidade dos traços e o colorido de suas obras convidam o observador a apreciar figuras e detalhes que provocam a sinergia entre tais elementos, com um resultado emblemático e transcendental.

Lembro outro momento durante meu mandato de Conselheiro de Cultura da Cidade Branca e durante a 13ª edição do Festival América do Sul Pantanal, pude conferir um dos mais conhecidos artistas plásticos sul-mato-grossenses, Ilton Silva, pintando quadros ao vivo em pleno Porto Geral, em Corumbá.

Naquela oportunidade eu conversava e ele me explicava que iria deixar a inspiração o conduzir na escolha dos temas, mas que pretendia dar ênfase a elementos da região, como o casario, barcos, canoas de pescador. Ilton Antunes da Silva, nascido da união de Conceição Freitas da Silva, a notável artista primitivista que esculpia os "bugres", hoje elevados à condição de ícones culturais de MS, e de Abílio Antunes, funcionário público federal. Nos primeiros tempos, oferecia suas telas de casa em casa. Mais tarde, instalando seus ateliês em locais em Campo Grande, assistia à popularização desses espaços, que se tornavam referências para comercialização de suas obras e encontros de artistas e amantes das artes plásticas. O conjunto de sua obra revela o peso da presença cultural guarani em Mato Grosso do Sul. (Aliás ZéDu junto com o indefectível Bosco Martins compuseram a música “Alma Guarani” - Aqui o sol se mostra o dia inteiro, E a lua cheia é a mais bonita de assistir, Na longa

história: Nativos e Forasteiros,A nossa terra tem a "Alma Guarani".) musica que ao meu ver tem toda a essência do grandioso Ilton.

Até porque, em tese, seus personagens são trabalhadores da fronteira. As rudes feições de ervateiros e peões produzidos pela miscigenação, seus bigodes finos e alongados, cabelos negros e olhar vivo, uma indumentária que inclui o poncho, às vezes, o revólver e o "machete", a companhia do cavalo, os vistosos apetrechos de montaria, o exercício das lidas típicas do campo, o churrasco ou a roda de tereré, os bailes, as festas bem como a paisagem são elementos expressivos de composição que expõem as condições de existência dos trabalhadores fronteiriços.

O impacto da obra de Ilton Silva nos sul-mato-grossenses foi profundo. Por seu merecimento, a Câmara Municipal da Capital lhe conferiu o título de Cidadão Campo-Grandense.

Seu nome está gravado na história. Como assevera Aline Figueiredo “ A pintura faz parte de seu cotidiano, como espécie de lenitivo para aclarar as ideias. Não consegue começar ou terminar perfeitamente o dia sem antes ter pintado um quadro. In: FIGUEREDO, Aline. Artes Plásticas no Centro-Oeste. Aline Figueredo.Cuiabá,UFMT, MACP, 1979.

Numa determinada ocasião esbarramos em uma conversa mais uma vez e ele me contou naquela noite que naquela época arriscava, naturalmente, seus dotes artísticos com rabiscos no chão e madeira. “Minha primeira profissão foi engraxate, mas sempre fui muito observador das coisas, pessoas. Em um momento, fui trabalhar com meu tio, que fabricava erva mate, fumo, carne seca, melado e queijos. No chão daquele lugar comecei a fazer alguns desenhos e depois saía na rua tentando vender outras artes que eu fazia”. Ilton Silva morou por duas décadas em Santa Catarina quando enfim partiu para pintar estrelas com suspeita de pneumonia e anemia. Eu com as benção que Deus me deu, hoje durmo abençoado com uma de suas obras na parede do meu minúsculo “kafofo” dividindo o ambiente com uma rede, os jornais, livros, um valente ventilador, os diplomas que certificam meus trinta anos de estudo e as medalhas recebidos de pessoas e instituições que viram em mim, o que faço hoje ... conto histórias das personalidades que conheci e que me mostraram uma justa forma de viver e ensinaram a caminhar com fé no Arquiteto do Universo. Não se preocupe prezado Ilton. Aquele quadro só sai da parede quando eu também for escrever histórias no céu. Está ali para corroborar que a amizade pode sim, ser eterna e a cultura perene.

*Rosildo Barcellos - Articulista