OPINIÃO
Deise dos Anjos: uma Serial Killer Brasileira?
26 de Fevereiro de 2025, 06h00
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No mês de Fevereiro de 2025 recebemos, em perplexidade, a notícia da morte de Deise Moura dos Anjos, uma Contadora sem antecedentes criminais que estava presa acusada de ter envenenado, em alguns meses, várias pessoas da família de seu marido, tinha amanhecido morta do presídio de Guaíba, onde estava presa preventivamente. A causa da sua morte mais provável é de suicídio por enforcamento. É o aparente final trágico de uma sequência de eventos trágicos, onde várias pessoas inocentes pagaram com a própria vida, sem ter a mínima noção do que se passava dentro da própria família.
Antes de discutir esse caso específico, vamos falar um pouco sobre esse fenômeno que, infelizmente, saiu das páginas de romance para as policiais, desde a metade do século passado: os assassinos em série são, em sua maioria esmagadora, do sexo masculino. Muitos apresentam da infância a “Tríade da Psicopatia”, que é a crueldade com animais, a incontinência urinária e o colocar fogo em objetos ou locais, ou seres vivos. Os assassinos em série têm, muitas vezes, uma vida ordinária, com uma vida diurna “normal” e se transformam em predadores violentos em situações em que ninguém pode ver ou deter os seus atos. O filósofo Clóvis de Barros disse em palestra que a Moral é seguir as regras impostas pela sociedade. A Ética é respeitar regras e fazer a coisa certa quando não tem ninguém olhando. Um Psicopata não tem nem uma coisa, nem outra.
Os assassinos em série são, massivamente, portadores de uma personalidade malformada: o que a ciência forense chama de Psicopatas. Não tem capacidade de Empatia nem de percepção da dor que o Outro está sofrendo. Tem uma baixa sensibilidade às emoções e pouca capacidade de experimentar remorso ou responsabilidade pelos atos cometidos. Tem pouca chance de responder a tratamento ou buscar ajuda. Conseguem imitar os sentimentos das pessoas e manipular suas reações, muitas vezes se fazendo de santos ou vítimas, conseguindo a simpatia e proteção de muita gente. São muito visitados e assediados por muitas pessoas que os enxergam como “rebeldes” ou caras que não respeitam as normas sociais.
Eu gosto muito de um livro que fala sobre as Psicopatias e os Transtornos de Personalidade Antissocial: o título resume tudo – “Homens Maus Fazem o que os Homens Bons Sonham”. O que isso significa? Sonhamos em virar assassinos em série? Claro que não. Mas desde Freud sabemos que em nosso mundo interno repousam alguns desejos e pulsões primitivas e que nosso córtex Pré Frontal nos impede, felizmente, de trazer à luz do dia. O Cérebro do Psicopatas tem uma menor capacidade de conter esses impulsos, ou de se colocar no lugar de alguém que vai sofrer de sua violência, moral, física ou sexual. Sem essa contenção e capacidade de regular seus atos, os homens maus fazem aquilo que só fazemos em nossos pesadelos. Mas estamos falando o tempo todo dos homens: e as mulheres? Existem assassinas em série femininas? São bem mais raras, mas existem. Ao contrário dos homens, que perpetram sua violência com motivos de domínio e controle sexual, as mulheres não colecionam vítimas entre seus parceiros sexuais. Sabemos das histórias de profissionais da enfermagem matando pacientes terminais ou indefesos e outras que matam por vingança, frequentemente seus companheiros ou membros de sua família. Esse parece o caso que vamos discutir.
No Natal de 2024 veio a público a notícia de uma família do Sul onde vários membros da mesma tinham morrido após comer um bolo num chá da tarde onde um bolo foi servido. Foi pesquisado causas de intoxicação alimentar ou envenenamento acidental, mas logo as evidências apontaram para Deise de Moura dos Anjos, a nora de dona Zeli. Dona Zeli fez o bolo que envenenou e matou duas irmãs e uma sobrinha, além de intoxicar duas crianças e ela própria. A farinha envenenada lhe foi fornecida por sua nora, Deise.
As informações que surgiram sobre Deise foi um histórico de desavenças e mágoas entre ela e sua sogra. Deise foi descrita como ciumenta, instável e que sentia frequentemente vitimizada pela família do marido. O seu suposto ato suicida se deu no mesmo dia em que o advogado de seu marido veio notificá-la que o rapaz iria finalmente se divorciar dela.
Ela deixou um bilhete na sua camisa de interna do presídio de Guaíba, onde endereçou seu último recado não a seu filho, uma criança de dez anos, mas às famílias Silva e dos Anjos: afirmava que “não era uma assassina, apenas um ser humano fraco e com depressão por tanto sofrer na vida e pagar pelos erros dos outros”.
Por enquanto muito precisa ser apurado e esclarecido, mas os indícios apontam para uma moça profundamente perturbada pelos próprios fantasmas, que ela projetou, massivamente, sobre as famílias de seu marido. Essa sensação de ser injustiçada/perseguida cresceu de uma forma que virou uma vingança cega que vitimou seu sogro, duas irmãs de sua sogra e uma sobrinha. A ironia do destino é que o alvo maior de sua vingança, a sua sogra, comeu dois pedaços do bolo e sobreviveu.
O que dá para amplificar para todos nós, que tentamos ser boas pessoas, é a necessidade de se trabalhar muito profundamente esses pensamentos para que eles não virem monstros que devoram a vida e os atos de alguém que tinha uma vida pacata e sem violência. Respondo à pergunta do título: Deise dos Anjos foi uma Serial Killer? Não. Deise dos Anjos foi uma moça psiquicamente muito, muito doente.
*Marco Antonio Spinelli é médico, com mestrado em psiquiatria pela Universidade São Paulo, psicoterapeuta de orientação junguiana e autor do livro “Stress o coelho de Alice tem sempre muita pressa”