O consumo recreativo “narguilé” – um mal em expansão

por Pedro Maggi - médico

26 de Maio de 2017, 08h30

O consumo recreativo “narguilé” – um mal em expansão
O consumo recreativo “narguilé” – um mal em expansão

Observa-se, principalmente nos últimos dois anos, um aumento significativo do uso do narguilé em Rondonópolis, cidade ao Sul de Mato Grosso. Isso pode ser verificado pelo aumento do número de lojas que vendem o tabaco e as pedras de carvão na cidade e pelas constantes rodas de fumo disseminadas pelas calçadas. Nessas rodas de fumo, observamos sempre o mesmo padrão: adolescentes entre 14 e 18 anos reunidos em bandos, inalando o Arguile, outro nome utilizado para a prática, e baforando sua fumaça tóxica.

O grande problema dessa prática é que nem os jovens nem os pais desses jovens estão informados sobre os seus malefícios. Segundo a Sociedade Brasileira de Pneumologia, órgão que regulamenta a prática dos médicos especialistas em Pneumologia do Brasil, o consumo de uma rodada do narguilé, ou seja, de uma rodada completa com o consumo total do fumo utilizado, é equivalente ao consumo de cerca de 100 cigarros. Repito, 100 cigarros! Os malefícios do consumo do cigarro já estão espalhados no ideário brasileiro, mas do narguilé ainda não. É necessário esclarecer e regulamentar essa prática.

Um estudo de 2010 encontrou na fumaça do narguilé os seguintes componentes: CO -150 mg, nicotina - 4mg e alcatrão - 602 mg. Esses valores são muito, muito mesmo, superiores aos valores encontrados no cigarro. Além disso, já existe relato na literatura de um jovem que, após o uso crônico do narguilé, deu entrada em um Pronto Atendimento com o quadro clínico de um Derrame Pleural, doença grave que pode levar o individuo à morte.

Além disso, o uso crônico do Narguilé pode causar, provavelmente de maneira mais rápida que o próprio cigarro, uma doença conhecida como DPOC - Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica. Ela causa a diminuição do calibre das vias aéreas devido a um processo inflamatório, podendo levar até mesmo a destruição do tecido pulmonar. A doença pode ser melhor entendida e visualizada como uma combinação entre Bronquite e Enfisema Pulmonar, o que demonstra a sua gravidade.

Portanto, levando em consideração todos os malefícios que o uso disseminado e crônico do narguilé provoca, o município de Rondonópolis precisa começar a entender e trabalhar de maneira mais efetiva essa prática que conduz a, nada menos, que o tabagismo. É preciso conscientizar a população de que o consumo dessa droga causa dependência e, provavelmente, mais intensa que a do cigarro. E a dependência não é só química, não! Além de química, gera dependência física e psicológica. Vale lembrar que, até o momento, os únicos dois Estados Brasileiros que legislaram sobre a proibição da venda do narguilé aos menores de 18 anos foram São Paulo e Paraná. O município de Rondonópolis pode ser o precursor desse trabalho no Estado de Mato Grosso.