OPINIÃO

O acordo UE–Mercosul e o dilema estratégico europeu

por Fabio Ongaro

27 de Janeiro de 2026, 09h41

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A decisão do Parlamento Europeu de encaminhar o texto do acordo UE–Mercosul para análise jurídica e de conformidade é um passo técnico, formal, quase “inevitável” no roteiro institucional europeu. E justamente por isso ele carrega um peso político maior do que parece. Na prática, a decisão empurra a aplicação para frente, atrasando o início dos efeitos econômicos por alguns meses, no mínimo. E, mais importante: reforça a sensação de que a Europa, mesmo quando enxerga uma oportunidade histórica, precisa primeiro convencer a si mesma de que está autorizada a agir.

O ponto central é que o acordo deixou de ser apenas uma oportunidade. Ele se tornou, diante da geopolítica atual, uma espécie de obrigatoriedade estratégica. Não porque o Mercosul seja a solução para todos os dilemas europeus, mas porque a União Europeia vive um momento em que ficar parado tem custo alto. A fragmentação das cadeias globais, o reposicionamento industrial, a disputa por minerais críticos, energia, alimentos e influência regulatória empurram o mundo para blocos mais pragmáticos. Nesse cenário, a UE pode escolher negociar, ou pode ser “negociada” por terceiros, perdendo relevância por inércia.
A possibilidade de aplicação provisória do acordo, mesmo com risco de bloqueio posterior ou de ajustes ao longo do ano, traduz esse paradoxo. A Europa parece avançar com um pé no acelerador e outro no freio. É como se dissesse ao mundo: “precisamos agir”, mas em seguida completasse: “desde que ninguém se sinta desconfortável demais”. Essa postura, para alguns, é sinal de fraqueza. Para outros, é a prova de um modelo civilizatório: decisões com filtros, controles e equilíbrio institucional.
Mas é impossível ignorar o contraste com a velocidade disruptiva de Donald Trump e com a marcha silenciosa, e contínua, da China. Trump, mesmo quando erra, cria fatos políticos. Ele altera expectativas, desloca agendas, obriga aliados e adversários a reagirem. A China, por outro lado, raramente precisa de espetáculo: ela executa. Planeja por décadas, investe por ciclos longos, captura cadeias industriais inteiras e transforma presença econômica em influência estratégica, sem necessariamente levantar a voz.
A União Europeia, ao comparar-se com esses dois polos, parece presa a uma pergunta incômoda: agilidade é sinônimo de força? Ou é apenas sinônimo de impulsividade? O problema é que, no mundo real, agilidade virou um ativo geopolítico. Quem decide rápido ocupa espaço. Quem decide devagar perde a narrativa e, depois, perde o mercado.
A crítica mais comum é direta: a UE, embora se apresente como entidade política, ainda opera como um condomínio de interesses nacionais. Cada país segue olhando para a própria “horta”, e o conjunto tem dificuldade em assumir decisões corajosas que inevitavelmente criam vencedores e perdedores internos. O agro francês teme concorrência. Setores sensíveis irlandeses e austríacos resistem. O debate se desloca do estratégico para o doméstico. E o resultado é o que vemos: o mundo muda em alta velocidade, mas a Europa responde em baixa rotação.
Só que há um detalhe que os críticos frequentemente ignoram: essa lentidão não é apenas falta de coragem. É também arquitetura. A UE foi construída para evitar decisões unilaterais bruscas, para reduzir riscos de captura política e para criar previsibilidade. O mesmo sistema que torna o processo moroso é o que garante estabilidade regulatória, segurança jurídica e um padrão institucional raro em escala global. A Europa não “trava” apenas por medo. Ela trava porque foi desenhada para travar e para só avançar quando o avanço for defensável por dentro.
O desafio é que o mundo não espera o tempo institucional europeu. A nova competição global não é só sobre tarifas e quotas. É sobre padrões tecnológicos, regras ambientais, infraestrutura logística, energia e moeda. É sobre influência em cadeias de suprimento e sobre quem define o que é “conformidade”. Quando o Parlamento Europeu manda o texto para análise jurídica, ele está fazendo o que o sistema exige. Mas, do lado de fora, o sinal pode ser interpretado como hesitação.
E aí nasce o risco geopolítico mais perigoso para a Europa: não é apenas ficar mais lenta, é ser vista como irrelevante. Um player fraco, inerte, incapaz de agir unido e com força. A percepção, em geopolítica, vira realidade rapidamente. Parceiros começam a buscar alternativas. Empresas redirecionam investimentos. Países emergentes leem a Europa como mercado, não como potência. E, quando você deixa de ser potência, passa a ser terreno de disputa entre potências.
Por outro lado, existe uma leitura mais sofisticada e menos emocional desse mesmo quadro. A UE pode estar praticando algo que Trump e a China não têm: paciência diplomática com base multilateral. A Europa, ao evitar agressões verbais e escaladas artificiais, preserva canais, coalizões e legitimidade. Ela não ganha manchetes com decisões instantâneas, mas constrói confiança com previsibilidade. No longo prazo, isso pode render mais: acordos mais duráveis, investimentos mais consistentes e um ecossistema de comércio menos sujeito a choques políticos.
O problema é que “no longo prazo” é uma frase confortável e perigosa. Porque o longo prazo só chega para quem sobrevive ao curto prazo. E, hoje, o curto prazo está cheio de armadilhas: protecionismo, guerras comerciais, pressão sobre energia, crise industrial, radicalização política interna e perda de competitividade em setores estratégicos.
O acordo UE–Mercosul, portanto, virou um espelho. Ele mostra a Europa como ela é: sofisticada, institucional, legalista e, ao mesmo tempo, lenta, fragmentada e vulnerável ao veto doméstico. Se a UE quiser que sua paciência seja vista como força, ela precisará provar que consegue transformar burocracia em execução. Porque, no mundo que está se formando, não basta ter valores. É preciso ter velocidade.
E talvez esse seja o ponto final: o acordo não é só sobre comércio. É um teste de maturidade estratégica. Para a Europa, significa escolher entre ser um ator que regula o mundo ou um mercado que o mundo regula. Para o Mercosul, significa decidir se continuará apenas exportando commodities ou se usará o acesso ampliado para subir na cadeia de valor, atrair indústria, tecnologia e investimento produtivo.
A análise jurídica pode atrasar. A política pode hesitar. Mas a geopolítica não pausa. E, quando ela acelera, quem demora demais descobre que não perdeu apenas tempo, perdeu posição.
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Por Fabio Ongaro, economista e empresário no Brasil, CEO da Energy Group e vice-presidente de finanças da Câmara Italiana do Comércio de São Paulo - Italcam