A última eleição do Boca

por Lucas Perrone *

27 de Dezembro de 2013, 18h58

A última eleição do Boca
A última eleição do Boca

Quem acompanha a política de Rondonópolis, nos últimos 30 anos, já deve ao menos ter ouvido falar em Joel Câmara, mais conhecido nas rodas e nas conversas de política como Boca.

Ele, que faleceu, quase que anonimamente, no dia de natal, era uma referência em épocas de eleições, era consultado e ouvido por líderes e pessoas influentes no dia-a-dia da política.

Para quem não sabe, Boca sempre militou nos bastidores da política local, peemedebista fervoroso, ele foi íntimo de líderes do estado como Carlos Bezerra, Dante de Oliveira, Hermes de Abreu e o atual prefeito Percival Muniz, dentre outros.

Boca chamava-os não pelos seus nomes e sim pelos apelidos que esses líderes carregavam no final da década de 80, quando lutavam contra a ditadura militar. Ele guardava consigo histórias deliciosas do velho Manda Brasa e quando eu escrevia a coluna Papo Político, no A TRIBUNA, ele sempre vinha com uma boa história deste ou daquele político e geralmente eu checava e via que era verdade.

Conheci Boca em 1997, quando era forte defensor do ex-prefeito Alberto de Carvalho, que veio a renunciar um ano mais tarde, em meio a uma CPI promovida na época pela Câmara de Vereadores. Boca não se intimidava em ir às ruas para bradar em favor de Alberto, mesmo sabendo do grande desgaste público que o ex-prefeito passava.

Boca andava a tiracolo com recortes de jornais em que mostrava reportagens com números, estatísticas e resultados eleitorais de disputas antigas. Ele sabia, por exemplo, quantos votos teve Bezerra em 82, ou a votação de Rogério Salles nas eleições de 2010. Boca fazia questão de lembrar e analisar a votação de cada vereador eleito no ano passado. De repente , uma discussão mais acalorada ele tirava como um mágico tira da cartola, a sua famosa relação de votos deste ou daquele candidato.

Como conhecedor do mundo político e do povo de Rondonópolis, costuma prever com certa facilidade quem venceria ou quem perderia uma eleição vindoura na cidade. Ele sabia ler com clareza a mensagem e o recado que o povo queria dar nas urnas, neste aspecto errava pouco. Boca apoiava seus candidatos por ideologia e mesmo quando sabia que o seu candidato iria perder, ele levava a fundo o ditado que dizia que na política quando se pega um santo, mesmo com todos os percalços da caminhada, mesmo que o ele chegue quebrado é preciso entregá-lo na igreja, e isso o velho Boca fazia com maestria.

Boca, nas eleições passadas, me parou em frente ao Restaurante do Luciano, na avenida Bandeirantes, um dos locais, que frequentava quase que diariamente, para me dizer que apesar de ser peemedebista e de saber que o partido estava apoiando o ex-prefeito Ananias Filho, no embate contra Percival, que estava chateado com o partido e que dessa vez, o PMDB iria para a disputa, mas ele (Boca) não estaria pedindo votos nas ruas ou seguindo os líderes do partido que amava. Mal sabia, que essa era a sua última eleição e que agora não pedirá mais votos aqui no plano terrestre. A política perdeu um dos últimos cabos eleitorais na essência da palavra, do tipo que não se vê mais em épocas atuais, onde a ideologia perdeu espaço para o dinheiro.

* Lucas Perrone é jornalista e coordenador de Comunicação da Prefeitura de Rondonópolis.