Como vovó já dizia, certo por linhas tortas

por Eduardo Ramos

27 de Junho de 2016, 14h56

Como vovó já dizia, certo por linhas tortas
Como vovó já dizia, certo por linhas tortas

Minha avó costumava dizer que Deus escreve certo por linhas tortas. Pensei nela ao ver o resultado do plebiscito que retirou o Reino Unido da União Europeia. Capitaneado por extremistas de direita movidos pela xenofobia e o preconceito, o movimento separatista ganhou a maioria dos ingleses e assustou o mundo. Quer dizer, assustou os atuais donos do mundo. Aquela minoria que lucra alto com a Globalização, em detrimento dos outros 99% de habitantes do planeta. Inclusive eu e, provavelmente, você.

Sim, a decisão lá terá impacto na economia mundial. Mas, acima disso, representa uma fissura no pensamento hegemônico que - há décadas - impõe esse modelo de Globalização como único caminho para a humanidade. Por motivos diferentes outros países podem seguir o exemplo inglês, o que exigirá do resto do mundo uma reflexão sobre alternativas para as relações globais. Por mais doloroso que seja no curto prazo, esta reflexão obrigatória poderá nos conduzir a uma realidade melhor.

Para entender o paradoxo, vamos aos fatos. O termo 'Globalização' começou a ser usado largamente a partir da década de 80 do século passado. Aos incautos parecia a tradução econômica da utopia do mundo sem fronteiras, cantada magistralmente nos versos de 'Imagine'. Na época, eu ainda garoto, quase me encantei com aquilo. Mas, na prática, a tal Globalização produziu um mundo pior que o anterior. E absolutamente inverso ao imaginado na canção do genial John Lennon.

As riquezas aumentaram, mas ficaram ainda mais concentradas em poucas mãos. Enfraquecemos a autonomia político-jurídica dos países, tornando governantes e magistrados meros capatazes dos grandes grupos econômicos. A democracia virou joguete nas mãos dos poderosos endinheirados. Os direitos trabalhistas e previdenciários foram atropelados e nivelados por baixo no mundo inteiro. E a agiotagem global inaugurou a era do 'deus Mercado' e do 'deus Dinheiro', onde a Produção e a própria vida humana perdem valor a cada dia.

Neste período os trabalhadores e pequenos empreendedores tornaram se presas fáceis. Elevamos o consumismo, o materialismo e o individualismo a escalas nunca vistas. E produzimos um mundo marcado pela desigualdade, miséria, guerras, terrorismo e pelo ódio. O resultado expressa-se em fenômenos sociais também globais - como a violência urbana, a corrupção, o desemprego, os suicídios, as epidemias e o número recorde de refugiados. Como já alertava o visionário (e também genial) Renato Russo, 'Vivemos num mundo doente'.

Como todo bom veneno, a vitória dos separatistas ingleses pode ser o remédio necessário para que a humanidade acorde dessa loucura globalizada. Para que possamos repensar a ordem econômica, destronando os deuses falsos e restabelecendo a 'Felicidade' como paradigma máximo da nossa existência.

Confio ainda na consciência humana. Confio também em minha avó. Deus, o Verdadeiro, está escrevendo a nossa história. Creio que quanto maior for o baque, melhor será. Torço para que o 'trauma' Europeu balance as estruturas globais e que nestas linhas tortuosas nós, os 99%, saibamos aproveitar o momento para atuar como protagonistas da nossa própria História.

Não temos nada a perder. Apenas nossos grilhões.

*Eduardo Ramos é jornalista em Rondonópolis.