ENTREVISTA MAL SUCEDIDA
Na TV aberta, machismo e misoginia como elementos tristes de uma pauta eleitoral
27 de Junho de 2018, 08h27

Do ponto de vista jornalístico, as considerações sobre a entrevista mal sucedida feita com a pré-candidata à presidência da República pelo PCdoB, Manuela D'Avila no programa Roda Viva, da TV Cultura:
Repartindo cerca de 3% das intenções de votos nas mais recentes pesquisas eleitorais, tanto a pré-candidata do PCdoB Manuela D'Avila quanto nenhum outro pré-candidato da esquerda figuram com percentual significativo em 2018 (o que não é fato novo). O projeto mais próximo de um bom resultado nestas eleições é algo atual e bizarramente chamado de centro-esquerda, encabeçada por Ciro Gomes -PDT. Este, sim, aglutinará essa parcela do eleitorado num possível segundo turno. Em tempo: Lula candidato é pura ilusão.
Na entrevista mal sucedida para a qual a candidata foi convidada, entretanto, Manuela, como sugeriu em nota oficial o Partido dos Trabalhadores, precisou ser gigante. Não nos números, obviamente, mas nos termos ideológicos e políticos. Precisou ser gigante na postura ante a bancada do programa televisivo, desrespeitosa com sua entrevistada, pouco ou quase nada comprometida com o que, de fato, era importante.
Fosse ela, Manuela D'Avila, de partido a ou b, esquerda ou direita -ou até mesmo duas caras como é Ciro - não merecia tamanha falta de comprometimento por parte dos entrevistadores. A pré-candidata foi, sim, vítima de machismo. Teve a fala interrompida por 62 duas vezes ao longo do programa, seu raciocínio fora desprezado. A bancada escolhida para entrevistá-la foi misógina.
A título comparativo, nas entrevistas com os também pré-candidatos João Amoedo -Novo, Marina Silva -Rede, Guilherme Boulos -Psol e o já citado Ciro no mesmo programa o tratamento não foi igual. Nem mesmo a linha esquerda, pode-se dizer, genuína, do Psolista foi interrompida. Manuela foi inegavelmente destratada enquanto mulher, pré-candidata e front de uma, nova ou não, proposta democrática.
Ainda nesta linha, Manuela tem se blindado e preocupado no discurso frente a uma imprensa que, de modo geral, não contribui para o debate político. Antes de explanar sobre propostas de governo, essencial e escopo destes tempos, é obrigatório que ela quebre, a cada entrevista, um pensamento arcaico e até desleal de muitos jornalistas. Colam sua imagem em Lula -até agora, inclusive, adversário nas urnas-, depois usam a Venezuela, Cuba ou a China como se, para ela, figurassem como possíveis exemplos para o tal modelo comunista do Brasil. Partem daí para perguntas como "onde o comunismo deu certo?" e por aí vai. Oras, companheiros, tudo isso já foi exaustivamente debatido e esclarecido, não só por ela. Boulos também costuma sugerir em ocasiões assim que se olhe para o novo, afim de que se evite a canalhice eleitoral.
Semana passada, a revista IstoÉ entrevistou a candidata e a tônica foi quase a mesma coisa. Antes dos temas segurança pública, reforma tributária, saúde e educação foi preciso dissertar sobre a Alemanha Oriental, Vladmir Putin, gostar ou não de Lula... Sempre, quem entrevista, a espera de uma resposta interpretável, uma fala pronta ou um deslize.
Voltando para o programa Roda Viva, momentos de ironia e excessos da bancada e, mais uma vez, desrespeito com o entrevistado. Foi vergonhoso. Manuela poderia ter sido melhor aproveitada. Do ponto de vista das ideias práticas de governo e projetos efetivos para o Brasil já rendera infinitamente mais em outras entrevistas. Ainda como exemplo, Ciro, quando entrevistado pelo mesmo programa, fugiu vez e outra em sua resposta e não foi interrompido. Com jeitão típico de coronel, comeu a banca e ponto.